Como a criança era vista e tratada desde a época medieval até o século XX?

A sociedade tradicional medieval via mal a criança e pior ainda o adolescente. Nesta época não havia espaço para a família, mas na verdade o que não existiam eram os sentimentos e valores.

A família não tinha função afetiva, sua missão principal era: a conservação dos bens; a prática comum de um ofício; a ajuda mútua, entre homem e mulher, pois sozinhos não podiam sobreviver; ainda nos casos de crise, a proteção da honra e da vida.

Portanto, a passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante, sendo que ela mal tinha condições de forçar a memória e tocar a sensibilidade de um adulto.

Tão logo a criança apresentasse algum embaraço físico, era misturada em meio aos adultos e partilhava de seus trabalhos e jogos. De “criancinha pequena” ela se transformava imediatamente em “homem jovem”, sem passar pelas etapas da juventude.

Como a criança é vista na arte medieval?

A arte medieval representava a criança como um adulto em escala reduzida. Por que é importante analisarmos a arte no estudo da história da infância? Na verdade acontecia que as pinturas e as esculturas refletiam desconhecimento total sobre a criança.

As imagens retratadas nada mais eram do que pessoas musculosas, com físico de adulto, onde a única diferença resumia-se numa estrutura menor. Elas nunca eram retratadas sozinhas e jamais ocupavam algum ponto central da tela.

O que podemos concluir até agora? A passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante. Ela era vista como substituível, como ser produtivo que tinha uma função utilitária para a sociedade, pois a partir dos sete anos de idade era inserida na vida adulta e se tornava útil na economia familiar.

Realizando tarefas, imitando seus pais e suas mães, os acompanhava em seus ofícios, cumprindo, assim, seu papel perante a coletividade. A duração da infância era reduzida no período mais frágil, enquanto “filhote de homem” não podia cuidar de si sozinha. (ROCHA, 2002).

Séculos XVII a XIX

Sem dúvida, o século XVII constitui-se um marco na evolução dos sentimentos em relação à infância. Aos poucos a sociedade foi percebendo que a criança não poderia ser tratada de maneira igual a um adulto. Mas, não podemos esquecer que esse processo foi gradual e lento. Foi neste século que a infância mereceu maior atenção, levando a uma descoberta gradativa de sua estrutura física, de sua linguagem e de suas peculiaridades.

As crianças passaram a ter os seus próprios trajes, diferentes dos usados pelos adultos, o seu próprio quarto, comidas consideradas mais adequadas a elas. Nascia uma ideia de inocência na infância.

Constata-se, com isto, uma evolução na percepção e, consequentemente, no sentimento dirigido à criança. De um ser ignorado, ela passa a ser valorizada a partir de sua perda (morte) para, finalmente, ser reconhecida a sua importância enquanto viva por si mesma.

A formação moral das crianças

Surge ainda nessa época uma preocupação com a formação moral das crianças e com sua transformação em homem racional.

Essa perspectiva aparece com o surgimento, nos homens da lei e eclesiásticos, com uma sensibilidade, com a disciplina e preservação moral da criança. A partir daí tudo mudou no lar. A família tornou-se o lugar de uma relação de afeto necessária entre os cônjuges e os filhos, algo que ela não era antes.

Essa afeição se exprimiu com importância adquirida pela educação. Não se tratava mais de criar os filhos em função dos bens e da honra. Tratava-se de um sentimento inteiramente novo. Os pais passaram a se interessar pelos estudos de seus filhos e a família começou então a se organizar em torno da criança, e muitos autores afirmam que nessa época ela começa a sair do anonimato.

A criança passa a ser focalizada de um lado pela própria família, considerando-a engraçadinha, possuidora de comportamentos interessantes e, por outro, externo ao meio familiar e voltado para a importância da infância enquanto época da vida merecedora de orientação e educação.

No século XIX, ninguém ousaria então a consolar-se da perda de uma criança na esperança de ter outra. Esse pequeno era insubstituível e essa perda era irreparável. Houve, portanto, uma redução voluntária da natalidade.

O mais importante dessa época foi a verdadeira descoberta da “infância”, suscitaram interesses que culminaram em mais estudos e mais conhecimentos. Toda a evolução de nossos costumes, contemporâneos, torna-se incompreensível se desprezarmos esse crescimento no sentimento da família. Não foi o individualismo que triunfou, foi a família.

A partir de século XX

Ocorre uma grande virada no pensamento científico e filosófico, marcada principalmente pelos estudos de Freud, que enfatizou a importância da infância, afirmando que muitas das neuroses tinham origem em traumas ocorridos na infância. O conceito – adolescência – não existia até o século XX. Os indivíduos hoje chamados de adolescentes pertenciam ao grupo de crianças.

A adolescência representava a fase final da infância e, na escola, eles eram separados dos adultos, permanecendo nas salas reservadas aos menores. No entanto, a partir do momento que esse conceito surge, maior ênfase será dada a essa fase que, como os estudos mostraram, pode ser complicada devido às mudanças internas e externas.

A criança realmente se torna o centro das atenções; ou seja, o principal motivo pelo quais os pais enfrentam duras jornadas de trabalho e sacrifício. De um modo geral, todo pai e mãe objetiva dar o melhor para os filhos. Hoje os casais optam por terem poucos filhos, uma média de dois.

A maior preocupação, nas classes mais privilegiadas, é manter a agenda da criança cheia, com aulas de inglês, natação, computação, judô, balé, etc. Ela vive em uma rotina cansativa, tendo um contato restringido com os pais, porque o tempo disponível de ambos é menor.

Por outro lado, os pais ficam emocionalmente mais sensíveis às necessidades das crianças, a ponto de procurarem recompensar a ausência oferecendo inúmeros “mimos”, roupas, eletrônicos, brinquedos e até muitos doces.

A década de 70 e a qualidade do tempo

Na década de 70 surgiu o conceito da “qualidade do tempo”, segundo o qual o importante não é passar horas e horas com os filhos e sim aproveitar bem o tempo que os pais passam com eles. Significava olhar a criança dentro dos olhos, conversar com ela, rir em sua companhia, fazer-lhe carinho e chamar-lhe atenção para o mundo em volta.

Constamos que nos dias de hoje o ambiente doméstico tornou-se palco de uma batalha contra o relógio. No qual os pais sentem-se obrigados a dar total atenção aos filhos no pouco tempo que dispõem e isso se transforma em um esforço que deixa os pais exaustos, e muitas vezes carregando um sentimento de culpa.

Caminhou-se bastante desde a Idade Média. A criança saiu do anonimato e tornou-se centro da vida dos casais. Ocorreram muitas mudanças dramáticas, mas o principal é os pais saberem achar um equilíbrio entre as inúmeras tarefas profissionais e domésticas, mas jamais se esquecer da responsabilidade de se criar e educar um filho.

Com tudo que aprendemos, fica aqui um alerta: o profissional pode ajudar os pais a perceberem que o mais importante é a criança saber que é amada. E importante na vida de seus pais é que nada substitui o tempo no qual passam juntos.

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