Interpretação de exames bioquímicos

A solicitação de exames laboratoriais pelo nutricionista é de extrema importância no acompanhamento dos pacientes. Os resultados dos exames possibilitam adequar o tratamento dietético, verificar a adequação à dieta prescrita e monitorar as evoluções metabólicas do paciente, no contexto da individualidade bioquímica.
Serão abordados aqui alguns exames laboratoriais de interesse para a nutrição. Ressalta-se que os pacientes também devem receber acompanhamento médico, sendo que para algumas patologias outros exames podem ser necessários.

Hemograma

– Eritrócitos: Os eritrócitos, ou hemácias, são os mais numerosos elementos figurados do sangue. No hemograma, avalia-se o número e o aspecto dos eritrócitos, que, em estados patológicos, podem apresentar alterações de tamanho, forma e coloração.
Na anemia ferropriva ocorre microcitose (redução anormal do tamanho celular) e hipocromia (diminuição da coloração das hemácias por redução da hemoglobina). Outras condições patológicas podem resultar em macrocitose (anemia megaloblástica, alcoolismo, hepatopatia e hipotireoidismo).
Os valores de referência para eritrócitos variam de acordo com a faixa etária, sendo que para adultos > de 16 anos ficam em torno de 4,3 a 5,7 milhões/mm3 para homens e de 3,9 a 5,0 milhões/mm3 para mulheres.

Hemoglobina:

A hemoglobina é uma proteína presente nos eritrócitos que tem a função de transporte de oxigênio (O2). A concentração de hemoglobina no sangue varia entre gênero e idade e define a condição de anemia (ferropriva, talassêmica, etc). Em adultos > 16 anos, os valores de referência são 13,5 a 17,5 g/dL para homens e 12,0 a 15,5 g/dL para mulheres.

Hematócrito

O hematócrito, ou volume globular, indica a massa total de células sanguíneas por unidade de volume. O hematócrito depende do volume ocupado pelos eritrócitos, pois eles são mais numerosos que os leucócitos e as plaquetas, além destas últimas possuírem diâmetro muito menor.
O hematócrito avalia a porcentagem das hemácias que pode estar diminuída por redução da síntese (doença renal, hemorragias) e/ou por perdas (hemólise, queimaduras). Para adultos > 16 anos, os valores de referência do hematócrito são 39 a 50 mL de eritrócitos/dL para homens e 35 a 45 mL de eritrócitos/dL para mulheres.

– Volume corpuscular médio: Representa o tamanho individual das hemácias e é o melhor índice para classificar as anemias.
– Hemoglobina corpuscular média: Representa a média da hemoglobina por eritrócito, que pode estar reduzida na microcitose e aumentada na macrocitose.

Concentração da hemoglobina corpuscular média

Representa a concentração de hemoglobina presente em 100mL de hemácias, permitindo a avaliação do grau de saturação de hemoglobina no eritrócito. A saturação de hemoglobina normal indica a presença de hemácias ditas normocrômicas. Quando diminuída, tem-se hemácias hipocrômicas, e, quando aumentada, hipercrômicas.
Série Branca

Os leucócitos são as células do sangue responsáveis pela defesa do organismo contra toxinas, vírus e bactérias. São classificados em granulócitos (neutrófilos, basófilos e eosinófilos), linfócitos e monócitos.

O leucograma é um exame obtido pela contagem de diferentes tipos de leucócitos, numa lâmina, por meio do microscópio. Valores de referência:
Leucócitos totais – de 4500 até 13.000 mm3
Neutrófilos – de 40 a 69%
Eosinófilos – de 0 a 5%
Basófilos – de 0 a 1%
Linfócitos – de 25 a 45%
Monócitos – de 2 a 10%
A série leucocitária é indicada para diagnóstico ou acompanhamento de infecções e inflamações, alérgicas ou leucêmicas, porém situações de estresse, gravidez, exercício físico, alimentação e uso de corticosteroides podem alterar os resultados.

A contagem total de linfócitos (CTL) é um indicador do estado nutricional que evidencia alterações bioquímicas precocemente. Pode estar aumentada nas infecções virais, agudas e doenças colagenosas e diminuída com o uso de corticosteroides e em doenças relacionadas à deficiência do sistema imunológico.
O cálculo é feito por meio da análise do leucograma, em que se utiliza o percentual de linfócitos atípicos e a CTL.
CTL = % linfócitos x leucócitos / 100
Interpretação:
Depleção leve – de 1.200 a 2.000/mm3
Depleção moderada – de 800 a 1.199/mm3
Depleção grave – < 800/ mm3
Plaquetas (trombócitos)

O estudo da série plaquetária inclui a contagem de plaquetas e a sua avaliação morfológica. A trombocitopenia pode ser consequência da redução da produção de plaquetas, do aumento de sua utilização ou destruição, ou de hiperesplenismo.

As trombocitopenias podem ter causas hereditárias ou adquiridas, como nos casos de púrpura trombocitopênica e anemia megaloblástica. As trombocitoses ocorrem em doenças mieloproliferativas, como a leucemia mielóide aguda, trombocitemia essencial, inflamatória ou maligna, hemorragia, anemia ferropriva, inflamação ou esplenectomia.

As alterações no número de plaquetas estão associadas a diversas condições, como alterações medulares, aterosclerose, diabetes, tabagismo, etc. Valor de referência para adultos: de 150.000 a 450.000/ mm3. 

Proteína total

O plasma contém muitos tipos de proteínas com diferentes funções. O teste bioquímico denominados proteínas totais é a soma de todas essas proteínas presentes, sendo a albumina a principal fração.

O valor diminuído (hipoproteinemia) pode ser decorrente da diminuição da síntese de proteína por desnutrição ou hepatopatia, por perda de proteína devido à síndrome nefrótica e estados catabólicos ou ainda por hipoalbuminemia. Valor de referência no soro: de 6,4 a 8,3 g/dL.

Albumina

A albumina é uma proteína sintetizada e secretada pelo fígado que corresponde à principal fração das proteínas totais no plasma. A albumina desempenha várias funções, como transporte de substâncias endógenas (aminoácidos, ácidos graxos, bilirrubina e outros metabólitos) e exógenas (drogas e produtos tóxicos).
A albumina possui meia-vida de cerca de 20 dias, e sua concentração plasmática diminui lentamente. Isso a torna insensível para a avaliação de distúrbios agudos e pode refletir tardiamente uma baixa ingestão protéica. Quando a albumina está em níveis muito baixos, pode ocorrer edema, pois a albumina também tem como função a manutenção da pressão oncótica do plasma.

A redução dos níveis séricos de albumina resulta dos seguintes fatores: diminuição de sua síntese (ex: por doença hepática); diminuição da ingestão de proteínas da dieta; catabolismo das proteínas corporais, induzido por doença ou estresse; excreção anormal de proteína na urina, como na síndrome nefrótica. Valores de referência no soro em adultos:
Normal: > 3,5 g/dL
Depleção leve: de 3,0 a 3,5 g/dL
Depleção moderada: de 2,4 a 2,9 g/dL
Depleção grave: < 2,4 g/dL

Pré-albumina

A pré-albumina tem meia-vida de cerca de dois dias e reserva corporal pequena, sendo um marcador precoce do déficit nutricional, o que é bastante útil para monitorar a resposta de pacientes com doenças agudas graves. Entretanto, como sua principal via de excreção é o rim, a falência renal pode indicar níveis falsamente elevados, mascarando os resultados. Também pode estar alterada em casos de inflamação e infecção. Valores de referência no soro:
Normal: de 19 a 38 mg/dL
Deficiência leve: de 10 a 15 mg/dL
Deficiência moderada: de 5 a 10 mg/dL
Deficiência grave: 0 a 5 mg/dL 

• Transferrina
Trata-se de um exame caro e que não é feito rotineiramente, portanto é mais utilizada sua determinação indireta por meio da fórmula que considera a capacidade total de ligação do ferro (CLTF):
Transferrina = (0,9 x CLTF) – 43
A interpretação dos resultados é a seguinte:
150 a 200mg% = depleção leve
100 a 150mg% = depleção moderada
< 100mg% = depleção grave

A transferrina é uma proteína plasmática sintetizada no fígado e transporta ferro no plasma. Sua dosagem é útil na avaliação do metabolismo do ferro, particularmente na investigação das anemias microcíticas (talassemia, sideroblástica e por deficiência de ferro).
Como possui reservas orgânicas e meia-vida de oito dias, torna-se um parâmetro nutricional mais confiável que a albumina, porém pode estar afetada pelas reservas de ferro, e pela presença de doença hepática grave, neoplasias, inflamações, doença renal e síndrome nefrótica. Valor de referência em adultos: de 250 a 425 mg/dL.

Avaliação da Tireoide (hipotireoidismo e hipertireoidismo)

– Tiroxina (T4 total e livre) e triiodotironina: A tiroxina (T4) é um hormônio secretado pela glândula tireoide que sofre conversão a triiodotironina (T3). Embora T4 seja secretada em quantidade 20 vezes maior que T3, esta última é a responsável pela maioria das funções tireoidianas no organismo, visto que é de 3 a 4 vezes mais potente que T4. Valor de referência para T4 total em adultos: de 4,5 a 12 µg/dL. Valor de referência para T3 em adultos: de 1,13 a 3,14 mmol/L.

Hormônio tireoestimulante (TSH)

É produzido pela hipófise anterior e responsável direto pela estimulação da glândula tireoide, aumentando assim a secreção de hormônios T3 e T4. Os valores de referência são expressos em termos de inibição da ligação do TSH: positivo – a partir de 1,5U/L; normal – < 1U/L; indeterminado – entre 1 e 1,5U/L.
Exames utilizados para acompanhamento de doenças renais
– Ureia: A ureia pertence ao grupo dos compostos nitrogenados não-proteicos. É uma molécula pequena que se difunde livremente entre os espaços extra e intracelular e, posteriormente, se concentra na urina para excreção. Níveis elevados de ureia na urina sugerem insuficiência renal.

Níveis baixos podem estar associados com dietas pobres em proteínas, com a expansão do volume plasmático ou com hepatopatias graves. Valor de referência no soro ou na urina: de 10 a 45 mg/dL.

Creatinina

A creatinina é o produto do metabolismo da creatina. Sua quantidade é proporcional à massa muscular esquelética do indivíduo. A creatinina é excretada de forma muito eficiente pelos rins, e sua concentração plasmática torna-se elevada quando há insuficiência renal. Valores de referência no plasma: homens – de 0,8 a 1,2 mg/dL; mulheres – de 0,6 a 1,0 mg/dL.

– Clearance de creatinina: A depuração, ou clearance de creatinina, ou ainda, a taxa de filtração glomerular (TFG) é um indicador da função renal, principalmente nos casos mais avançados, em que os níveis encontram-se bem abaixo do valor mínimo de referência (80 a 120 mL/min/1,73m2).
Quando os valores estão ≤ 60 mL/min, indica-se um tratamento chamado conservador ou não dialítico, em que a oferta de proteína é controlada com o objetivo de retardar a progressão da insuficiência renal. O tratamento dialítico é indicado quando a TFG é inferior a 15 mL/min.

Sódio

O sódio avalia os equilíbrios fluido-eletrólito e ácido-básico, bem como as funções nuromuscular, renal e adrenal relacionadas. Níveis séricos de sódio elevados (hipernatremia) podem resultar de ingestão inadequada de água, perda de água com excesso de sódio (diabetes insipidus, função renal prejudicada, vômito ou diarréia graves) e retenção de sódio (aldosteronismo).

Níveis séricos anormalmente baixos de sódio (hiponatremia) podem resultar de ingestão inadequada, perda excessiva de sódio devido à transpiração profusa, terapia diurética, vômitos, queimaduras, síndrome nefrótica, insuficiência cardíaca congestiva e insuficiência renal crônica com acidose. Valor de referência: de 135 a 145 mEq/L.

Potássio

A deficiência de potássio (hipocalemia) prejudica a função neuromuscular, tendo como sinais clínicos fadiga, mialgia e fraqueza muscular, paralisia, alterações no eletrocardiograna, taquicardia com alterações na onda T (achatamento ou inversão), depressão do segmento ST, e nos casos mais graves, prolongamento do intervalo PR, arritmias ventriculares e parada cardíaca.

As causas de hipocalemias podem ser: acidose tubular renal, o uso de mineralocorticoides, aldosteronismo, uso de diuréticos e outras drogas, além de ingestão inadequada, má-absorção, perdas gastrointestinais por vômitos, diarréia, uso de laxativos, fístulas, queimaduras e sudorese excessiva.
O excesso de potássio (hipercalemia) causa sinais clínicos como confusão mental, fraqueza, hipoventilação e bradicardia. Essa condição reflete excreção renal inadequada, mobilização do potássio dos tecidos, excesso do consumo oral ou de administração parenteral, uso de diuréticos poupadores de potássio e constipação intestinal. Valor de referência: de 3,6 a 5,o mEq/L.

Fósforo: O aumento de fósforo sérico ocorre por diminuição da filtração glomerular, aumento da reabsorção tubular renal e aporte endógeno ou exógeno. Valores séricos diminuídos são encontrados com uso de diuréticos, antiácidos, hiperparatireoidismo primário, septicemia, deficiência de vitamina D, hemodialisados crônicos, presença de vômitos, e na Síndrome de Realimentação. Valores de referência no soro em adultos: de 2,4 a 4,6 mg/dL em homens e de 2,3 a 4,3 mg/dL em mulheres.
Cálcio total: Os quadros de hipocalcemia podem ser observados nos pacientes com doença renal crônica, muitas vezes associados à deficiência de vitamina D. Por outro lado, a hipercalcemia é uma condição que está presente em administração crônica de diuréticos, uso da vitamina D e antiácidos. Valor de referência em adultos: de 8,4 a 10,2 mg/dL.
Magnésio: Os sinais clínicos da depleção de magnésio só se manifestam quando os níveis séricos se encontram muito comprometidos, ou seja, em valores abaixo de 1 mEq/L. As causas da depleção podem ser má-absorção, desnutrição, diarréia intensa, alcoolismo, pancreatite aguda, hiperalimentação parenteral prolongada, diálise crônica e hiperaldosteronismo. Os sinais clínicos de hipomagnesemia são: fraqueza, tremores, irritabilidade, delírio, convulsões, tetania e alterações no eletrocardiograma. O aumento dos níveis séricos de magnésio pode ocorrer nas desidratações intensas, na insuficiência renal, na insuficiência adrenocortical, em grandes traumas teciduais, no lúpus eritematoso sistêmico, no mieloma múltiplo, assim como pelo uso excessivo de antiácidos e de enemas ricos em magnésio. Os sinais clínicos da hipermagnesemia são: diminuição de reflexos, sonolência, arritmias e parada cardíaca. Valor de referência no soro: de 1,9 a 2,5 mg/dL.


Ácido úrico: No ser humano, o catabolismo das purinas (adenina e guanina) gera como produto nitrogenado o ácido úrico. O aumento da concentração de ácido úrico no sangue (hiperuricemia) está relacionado com o diagnóstico de gota, cálculo renal, insuficiência renal, neoplasias, leucemia e linfomas.
Ainda, muitos estudos têm associado o aumento do nível de ácido úrico com hiperlipidemia, obesidade e diabetes tipo 2. Como estes são fatores de risco para aterosclerose, torna-se importante a avaliação desse parâmetro.
O nível de ácido úrico encontra-se diminuído em situações como Síndrome de Fanconi, doença de Wilson e secreção inapropriada de hormônio antidiurético; também diminui sob efeito de drogas como alopurinol, aspirina em altas doses, contrastes rediológicos e altas doses de vitamina C. Valores de referência no soro: de 2,4 a 6,0 mg/dL em mulheres e de 3,4 a 7,0 mg/dL em homens.
Avaliação do oxalato na urina de 24 horas.
A necessidade de dosagem de oxalato em pacientes com nefrolitíase é imperiosa, em razão de 90% dos cálculos renais formados serem de oxalato de cálcio. A maior fração do oxalato urinário é endógena e do metabolismo do ácido ascórbico (vitamina C), com fração de apenas 10 a 15% do seu total excretado proveniente da alimentação. Valores de referência: de 17 a 43 mg/24h em homens e de 24 a 47 mg/24h em mulheres.

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