O cuidar e o cuidado

O verbo cuidar apresenta elevada carga semântica, devido a sua utilização em diversos contextos para significar diferentes operações: como cuidar de alguém enfermo, cuidar de si e/ou de seus objetos pessoais. Deteremo-nos no conceito do cuidar de alguém que se encontra adoecido e/ou dependente.
Segundo o minidicionário Aurélio da língua portuguesa, cuidar é um verbo transitivo e significa “[…] imaginar, meditar, cogitar; julgar, supor; aplicar a atenção, o pensamento, a imaginação; ter cuidado; fazer os preparativos; prevenir-se; ter cuidado consigo mesmo.” (FERREIRA, 2004).

A origem da palavra é latina, do termo cogitare e cura se refere diretamente ao cuidado do corpo e do espírito, marcante no famoso ditado em latim “mens sana in corpore sano”. Passado o período da Idade Clássica, com a Idade Média e o advento do cristianismo, seu termo se desprendeu do corpo e passou a ser utilizado como o cuidar da alma e a salvação do pecado original.

Hernández (2002), define a origem do termo cura a partir de duas dimensões: o curar e o cuidar. Enquanto a ação de curar seria uma ação sanitária, aplicável às ciências médicas: A ação de cuidar transcende o marco do sanitário e é preciso considerá-lo de um modo mais global e relacioná-lo, como recorda sua etimologia, com o exercício de curar. Para curar alguém, é necessário cuidar e evitar que sofra uma enfermidade, isto é, para prevenir, também é necessário cuidar. E por outro lado, a ação de cuidar, incluindo as praticadas aos enfermos denominados incuráveis, tem efeitos curativos, ainda que forem apenas detectáveis no plano interior do enfermo. Para curar bem é necessário cuidar. O cuidar é anterior ao curar. (HERNÁNDEZ, 2002)

Segundo Erikson (1998), o cuidado, corresponderia a “[…] um compromisso amplo de cuidar das pessoas, dos produtos e das ideias com os quais aprendemos a nos importar […]”, mas também dependente das forças que surgiriam nas fases de desenvolvimentos anteriores: esperança e vontade, propósito e habilidade, fidelidade e amor.
O cuidar e o cuidado seriam “[…] uma relação que se caracteriza pelo fato da pessoa que cuida estar no mundo da outra pessoa que é merecedora de cuidado, numa interação durante o ciclo de vida” (FURLAN et al., 2003).

Sena et al. (1999), relatam cinco categorias sobre o cuidar, desde o cuidar como uma característica humana, cuidar como um imperativo moral ou ideal, cuidar como forma de afeto e de carinho, cuidar como um aspecto das inter-relações pessoais e cuidar como intervenção profissional, referindo-se ao cuidar no caso dos profissionais de enfermagem.

A dimensão do cuidado assumiria características próprias e diferiria dependendo do ciclo de vida do paciente e do ciclo de vida do cuidador, assim como pela história de vida nas relações entre os dois.

Boff (1999), refletindo sobre o cuidado, nos relata que este “[…] serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade.” Cuidar seria a base do ser humano, desde seu nascimento até sua morte. Sem o cuidado, a pessoa definharia e perderia o sentido de sua existência e como consequência morreria. Cuidar seria a afirmação da capacidade do ser humano para com seu semelhante, presente até no gesto mais simples. Afirmando que “cuidar é mais que um ato; é uma atitude representa uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro.” (BOFF, 1999).

Para Brotchie e Hills (1991), o cuidar, além de uma atitude de amor e interesse por outra pessoa, é: geralmente considerado um atributo positivo – um sinal de comportamento maduro e civilizado. A capacidade de uma sociedade cuidar de seus membros menos afortunados é a marca do seu desenvolvimento.

Como o cuidado pode ser interno ou externo, quando o relacionamos com o início da ação, ou seja, cuidar-se ou ser cuidado por alguém, indicaria que este não é uma ação unilateral, porque ora cuidamos ou somos cuidados, e o resultado final seria único para a garantia do viver ou do sobreviver. Experenciamos assim, no transcorrer de nossa existência, diversas situações de cuidar e ser cuidado, que implica em conceitos como reciprocidade e solidariedade, e a troca não geraria sentimentos de dependência (DUARTE; BARROS, 2000).

Santos et al. (2002), relatam que a história do cuidado se encontra no espaço privado da família, relacionado com o cuidar materno, cuidar da família e a transmissão de experiências para as gerações posteriores. Mas que a ação de cuidar se apoia em bases científicas, com dimensões histórico-existenciais (o aprendido), dimensões estrutural-profissionais e dimensões psicoafetivas.

Os autores complementam que: O cuidar nos exige uma atenção para o estado de bem-estar como esperança de nascer, viver e morrer – esperança de viver para criar espaços nas instituições e condições nas quais a natureza exerça sua força para manter o bem-estar ou promover a recuperação após o mal-estar. […] As estratégias para a prática de cuidar e de ensinar a cuidar: conhecer o sujeito que se encontra no mundo da vida, no seio da família, no espaço social com outros ou sozinho consigo mesmo; intervir e interagir com ele na perspectiva de melhorar seu bem-estar; construir com ele um espaço de comunicação, transformação e produção de saberes e tecnologias, considerando os aspectos econômicos, culturais, políticos e sociais; encontrar espaço para ensinar crianças, adolescentes e adultos a tornarem-se cidadãos em equilíbrio com sua ecologia, entendendo-o como imaginários ou reais; procurar espaços de encantamentos para reflexão e discussão de modos de viver, de ser e de estar no mundo, numa perspectiva transcultural e transdisciplinar. (SANTOS et al., 2002).

A dimensão do ato de cuidar pode assumir inúmeras facetas, desde ocupação ou preocupação com seu semelhante, opção de vida ou imposição social, podendo estar impregnado de vínculos afetivos positivos ou negativos, responsabilidade com o outro no inconsciente coletivo ou ainda estabelecida após as relações afetivas e/ou parentais, além do desejo de cuidar, próprio do indivíduo relacionado com suas identificações profissionais.

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