O tempo e o espaço na narrativa

Primeiramente, devemos observar que numa narrativa há dois grandes tipos de marcação de tempo: os tempos externos à narrativa e os tempos internos. 

Quais são os tempos externos?
Em relação aos tempos externos, temos o tempo do escritor, que se refere ao tempo histórico de sua vida, que interfere na organização de sua narrativa pela presença de valores de sua época, e pela mudança desses valores no curso de sua vida, inclusive em relação aos movimentos estéticos literários.
Além disso, temos o tempo do leitor, que também se referem aos seus valores de época. Um texto escrito no século XVIII pode ser lido por alguém da época e depois por um leitor do século XXI. São leitores que possuem valores e expectativas diferentes, portanto lerão o mesmo texto de forma diferente.
A história contada pelo narrador pode se situar ou não na época no escritor; temos, então, o tempo histórico. Quando as épocas coincidem, da distância entre o tempo do escritor e o tempo histórico de sua ficção pode ser pequena. Agora, quando o escritor se refere a acontecimentos de outros tempos históricos, temos um grande distanciamento temporal.

Quais são os tempos internos de uma narrativa?

Em relação aos tempos internos da narrativa, é necessário considerar uma análise das relações entre a história narrada e o discurso narrativo. O tempo da história é cronológico, isto é, aparece numa sucessão cronológica de eventos. Essa sucessão pode ser explicitada pelo narrador ou deduzida pelo leitor.

No tempo da história temos a dimensão humana do tempo: além da marcação cronológica, ocorre com frequência o tempo psicológico, ou seja, o tempo cronológico distorcido em função das vivencias subjetivas das personagens. O tempo do discurso é a representação narrativa do tempo da história. Ele aparece de forma linear, ou seja, acontece enquanto o leitor vai lendo a história.
Existe uma ligação cronológica entre o tempo da história e o tempo do discurso. Ela pode ser linear, ou seja, os dois tempos obedecem à mesma sequência cronológica; em forma de retrocesso, quando a história se dá por flashback; ou antecipação, quando o narrador antecipa um fato que ainda não ocorreu ao nível da história.

Entendendo as 5 proporções de tempo na narrativa
Em relação ao tempo, existe ainda outro recurso utilizado pelo narrador: a proporção do tempo da história no discurso. O narrador pode concentrar anos da vida da personagem em poucas linhas ou pode atribuir a algumas horas algumas páginas. Isto é, ele pode resumir alguns fatos e destacar outros, de acordo com as estratégias de seu discurso narrativo. Segundo Abdala Junior é possíveis cinco proporções entre o tempo da história e o tempo do discurso dentro da narrativa.
– Escamoteamento:
De acordo com esta estratégia, o narrador escamoteia (esconde) informações, que para ele não são relevantes ou que quer propositalmente utilizar como estratégia para provocar suspense no leitor.
– Resumo
O tempo da história é maior que o tempo do discurso. Aqui, o tempo da história tem uma extensão maior que o tempo que levamos para ler a informação.
– Discurso direto
Com o discurso direto, o tempo em que as personagens levam para falar é o tempo em que o leitor leva para ler. Temos, então, o tempo da história igual ao tempo do discurso.
– Análise
Aqui, o tempo da história é menor que o tempo do discurso. O narrador para a história para fazer reflexões a respeito da ação ou descreve minuciosamente o espaço ou ação decorrida. Então, leva-se mais tempo para fazer a leitura do que o que ocorre ao nível da história.
– Digressão
Esse recurso só aparece no tempo do discurso e corresponde a um afastamento do narrador em relação à história que está contando para explicitar seu ponto de vista ou mesmo para dirigir-se ao leitor. A digressão acontece também quando o narrador para em decurso temporal para fazer uma descrição física.

O espaço da narrativa

O espaço na narrativa é o lugar físico onde as personagens circulam, onde as ações se realizam. Primeiramente, podemos analisar o espaço como interno e externo. 
No primeiro caso, as ações se dão dentro de um lugar fechado (casa, quarto, igreja, hospital, etc.), já no segundo caso, as personagens circulam em ambientes abertos (praia, rua, quintal, etc.).
É claro que numa narrativa muitas vezes os espaços são variados, vão desde um lugar fechado (interno) a lugares abertos (externo). Nestes casos, o que iremos observar é a predominância de um ou outro espaço.

Em muitos casos o espaço onde transcorrem as ações adquire grande importância para o desenvolvimento da narrativa, passando, às vezes, a ser fundamental dentro da trama, elemento essencial, intimamente ligado ao tema abordado ou até mesmo pode se tornar personagem da história.

Nesse sentido, é importante que seja considerado o espaço social pelo qual circulam as personagens e o espaço psicológico, as suas atmosferas interiores. Entre os espaços físicos, sociais e psicológicos são estabelecidas relações ao nível do discurso narrativo. 

O impacto do espaço na narrativa

Essa atmosfera da narrativa, então, em face dessa confluência, torna-se mais densa e pesada, caracterizando melhor os conflitos dessa personagem. Muitos críticos denominam essa tensão entre os espaços de ambiente.

No ambiente aparecem, além do lugar em que se desenrola a ação, características sociais da época em que se desenvolve a história, além de características psicológicas das personagens. O ambiente não serve apenas para situar a personagem no espaço físico e temporal, mas pode ser um elemento útil à continuidade do conflito, constituindo informações reveladoras de acontecimentos futuros, contribuindo, assim, para acentuar a atmosfera dramática.

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