Precisamos falar sobre Kevin e sua explicação pelas teorias de Melanie Klein

Precisamos falar sobre Kevin e sua explicação pelas teorias de Melanie Klein

No início do filme Eva aparece debilitada e confusa, morando sozinha e procurando emprego em uma agência de viagem. A todo o momento ela tem lapsos de memória sobre seu passado, nos quais aparecem cenas com seu marido Franklin e seus filhos Kevin e Lucy.

Após sua entrevista de emprego ela é agredida física e verbalmente por outra mulher na rua, um homem assiste a agressão e diz poder ajuda-la chamando a polícia, ela diz ser sua culpa e recusa a ajuda. Após este momento uma cena aparece diversas vezes em sua mente, onde pessoas e viaturas policiais estão em frente a um local fechado onde pessoas pedem socorro de seu interior.

Ela se recorda de como conheceu seu marido Franklin, de como engravidou e como ocorreu o processo de gestação. Segundo Melanie Klein a relação da mãe com o bebê é muito importante desde a sua concepção, pois o bebê antes de nascer já possui o conhecimento inconsciente da existência daquela mãe e esse conhecimento é a base para as relações futuras.

Percebemos que desde a gravidez Eva não aceitava carregar aquele filho, ela não estava feliz com aquilo, com isso percebemos que ela e o bebê não possuem o sentimento de unicidade (no qual a mãe e o filho são um só devido ao inconsciente interligado).

Neste mesmo momento a memória dela é guiada para uma visita a prisão onde está seu filho Kevin, ele está sentado em sua frente e começa a arrancar pedaços de pele de dentro da boca e enfileira-los em cima da mesa, eles ficam sempre em silêncio.

A hora do parto chega e Eva tem dificuldades, a médica fica repetindo para que ela pare de resistir, depois de algum tempo Kevin finalmente nasce; essa resistência pode ser compreendida como rejeição da mãe para com o bebê. Em casa o bebê chora constantemente, mesmo com Eva tentando acalma-lo, em um momento ela prefere o som de uma construção ao choro do menino; este outro episódio pode ser relatado como consequência de uma depressão pós-parto casada com essa questão da rejeição.

Melanie e o bebê

Para Melanie Klein o bebê não necessita apenas de alimento e cuidados básicos de higiene, ele necessita também de amor e compreensão que provém da mãe. Eva não conseguiu transmitir esses sentimentos positivos para Kevin quando ele nasceu e era pequeno.

A rejeição faz com que o bebê desenvolva uma ansiedade denominada pela autora como ansiedade persecutória, onde de zero a três meses de vida considera-se a fase de posição esquizo-paranóide. Kevin acostuma-se a um ambiente ameaçador e não se sente acolhido, por isso chora constantemente. Eva não consegue lidar com Kevin, não é acolhedora e não demonstra seu afeto, logo o bebê introjeta que ela possui o seio mau.

Em um determinado momento o bebê dorme e ela aproveita para descansar, mas quando o marido chega ele pega a criança do berço mesmo com Eva dizendo que ia acordá-lo e que tinha sido difícil fazê-lo dormir, o marido diz que é só acalenta-lo um pouco que ele dorme.

Ela se recorda das tentativas de Kevin interagir com ela usando uma bola, mas ele parece olhá-la com indiferença e não reage às investidas dela. Devido a esta falta de interação, a excesso de choro quando menor, e a ausência de fala Eva leva o filho ao médico acreditando que o diagnóstico possa ser de surdez ou autismo. O médico examina Kevin e diz que não há nada de errado.

Chegando a casa ela tenta novamente o jogo de bola, primeiramente o menino reage jogando a bola de volta, mas depois torna a ignorá-la. Ela tenta ensiná-lo a falar algumas palavras específicas, mas quando ela pede que ele repita ‘mamãe’ ele se nega. Eva diz a Kevin que era mais feliz antes dele nascer.

Após passar pela posição esquizo-paranóide, a criança passa pela posição depressiva, que tende a ocorrer de três a seis meses, mas podemos perceber que Kevin não passa por essa fase, pois ele não possui medo de perder o objeto de amor, ele considera que não possui esse objeto. Isso faz com que frequentemente ele demonstra impulsos destrutivos e sente prazer em agredir a mãe de alguma maneira.

A família se muda para uma casa maior mesmo com Eva querendo o contrário, pois Franklin acredita que Kevin precisa de mais espaço.

Uma noite Eva e Franklin estão tendo relações íntimas no quarto e Kevin entra dizendo que fez coco, imediatamente o pai deixa Eva sozinha e vai acolher o filho em suas necessidades. Ela decora um cômodo da casa com temas de viagem e o filho diz que isso é idiotice, ela fala que pode ajudá-lo a fazer o mesmo com algo que ele se interesse, mas ele se recusa e mantém a ideia de que é idiotice. Ele espera ela sair do local e mancha a parede com uma arminha de tinta, Eva se enfurece e destrói a arminha.

O pensamento retorna a mais uma visita à prisão, desta vez Kevin está passando a mão sob uma cicatriz no braço, a mãe pergunta se ele se lembra o que aconteceu. A cena muda e Eva aparece tentando ensinar matemática para ele enquanto pequeno, ele responde errado propositalmente várias vezes e amassa as folhas que ela lhe dá. Ele faz coco na fralda e ela reclama de trocá-lo, após a troca ele propositalmente suja a fralda limpa, ela se enfurece ainda mais e o joga contra a parede, quebrando seu braço.

Na volta do hospital o pai está em casa esperando e pergunta o que aconteceu com o braço do menino, Kevin mente para o pai dizendo que caiu sozinho do trocador em um minuto de distração da mãe.

A relação de Kevin com a Mãe

Neste momento podemos perceber a relação sádico oral e anal que Kevin possui com a mãe, a parte anal se dá devido ao controle. O garoto sabe controlar os esfíncteres, mas mesmo assim utiliza fraldas, provocando a mãe com o controle do coco e usa a cicatriz no braço também visando controlar a mãe (não contando para o pai que foi a mãe quem o machucou).

Eva e Kevin estão andando de carro e ele reclama da música que a mãe está ouvindo no rádio, ela desliga o aparelho e pergunta se eles podem passar em uma loja, o menino diz que não quer e ela cede sua vontade retornando para casa. Durante o jantar Kevin diz que a mãe é gorda, mais tarde Eva conta para Franklin que está grávida novamente.

No dia seguinte Eva tenta explicar para Kevin como se engravida com palavras delicadas, mas ele diz que já sabe ‘como se transa’ e que não gostaria de ter outra pessoa na família deles.

Lucy nasceu e, ainda na maternidade, Kevin joga água na cabeça dela, o pai não o repreende e o leva para comer alguma coisa, enquanto a mãe fica no quarto com o bebê. Esse comportamento de Kevin pode ser explicado devido aos ciúmes que ele sente por ter mais uma pessoa na relação entre ele, a mãe e o pai.

Em casa Eva e Kevin parecem se entender quando ela o auxilia em uma doença e lê para ele dormir, mas no dia seguinte Kevin não deixa que ela se aproxime nem para ajuda-lo a se vestir. Franklin começa a ensinar Kevin o arco e flecha, o menino torna-se muito bom e evolui com facilidade.

O pequeno momento de atenção que Kevin dá à mãe pode ser porque ela estava contando a história de Robin Wood para ele, portanto havia o interesse do arco e flecha que o pai estava ensinando, e não pela história estar sendo contada pela mãe.

Durante a época de Natal Kevin amarra a irmã com enfeites e diz que eles estão brincando de ‘sequestro de Natal’, no mesmo dia ele pede que a irmã pegue um refrigerante na geladeira e ela retorna com a bebida errada, ele a chama de retardada e manda pegar o correto.

A relação ciumenta de Kevin com sua irmã

Os impulsos agressivos estão voltados à irmã neste momento, pois o garoto tem ciúmes da menina com a mãe e tenta agredi-la de diversas formas. Nesses momentos de agressividade o superego não atua, deixando falar mais alto o id, por isso ele não sente remorso.

Eva tenta uma nova aproximação com o filho, levando ele para jogar golfe e jantar, ela faz um comentário maldoso sobre as pessoas gordas e Kevin fala que quando quer, ela sabe ser cruel e que puxou isso dela.

A irmã de Kevin machuca o olho e o pai não acredita que o menino seja responsável por isso quando Eva comenta essa possibilidade e eles tem um pequeno desentendimento. Mediante esses desentendimentos por causa de Kevin, Franklin e Eva decidem se separar quando as aulas terminarem (visando não causar impacto nos estudos dos filhos) e o menino entra na sala no momento da conversa dizendo que o contexto de tudo aquilo era ele.

Certo dia pela manhã todos saem para executar suas rotinas e, durante o trabalho, Eva é avisada de que algo está acontecendo na escola do filho. Dentro da escola, Kevin trava todas as saídas e aquela cena de pessoas pedindo socorro se repete; bombeiros conseguem liberar as portas e Kevin sai ileso com as mãos para cima, ele é algemado e levado pelos policiais.

Em seguida a cena das macas acontece, com alunos sangrando e pais chorando. Kevin atacou os colegas de escola com o arco e flecha, matando alguns e ferindo outros.
Eva não havia conseguido falar com Franklin o dia todo, ela volta para casa querendo encontrá-lo para que conversem sobre o ocorrido, mas ela encontra o marido e a filha pequena também flechados no jardim.

O planejamento da ação

Tudo foi premeditado antes pelo menino, não foi uma ação repentina e impensada, ele se aproveitou da idade (ainda não possuía 16 anos) para que a mãe fosse considerada culpada pelo seu crime. Mesmo ele sendo preso e ela continuando em liberdade, ela foi hostilizada pela população da cidade e teve que conviver com o sofrimento da situação. Eva tende a culpar-se por tudo que aconteceu, o que demonstra um sentimento de autopunição.

No final do filme, Eva aparece novamente visitando o filho na prisão e eles conversam. Ela pergunta porque ele fez tudo aquilo e ele responde que achava que sabia, mas hoje não tem mais certeza. Ela o abraça e pela primeira vez ele retribuiu, ela vai embora.

Chegando em casa ela arruma um quarto para Kevin exatamente como era antes, milimetricamente organizado para ser igual, isso demonstra um sentimento de reparação com objetivo de restaurar os laços de mãe e filho; essa reparação parte da necessidade de restaurar o objeto materno, uma relação familiar estável.

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