Riscos ocupacionais dos trabalhadores de enfermagem

O trabalho constitui uma das práticas mais importantes da vida do ser humano, pois, através deste, o homem garante a sua subsistência e a de sua família. Pelo trabalho, o homem deve garantir também sua satisfação pessoal advinda da sua realização e pelos resultados que seu esforço permite colher (Mauro et. al. 2004).
Mendes et al (1991) definiu a saúde do trabalhador como o processo de saúde e de doença dos grupos humanos, em sua relação com o trabalho, representando um esforço de compreensão deste processo – como e por que ocorre – e do desenvolvimento de alternativas de intervenção que levem à transformação em direção à apropriação pelos trabalhadores da dimensão humana do trabalho, numa perspectiva teleológica.

Qual a definição de acordo com a Organização Mundial da Saúde?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a globalização é um fator que pode contribuir para o aumento da incidência de doenças e acidentes de trabalho. As mesmas organizações relatam ainda que as doenças e os acidentes relacionados ao trabalho matam, anualmente, 1,1 milhão de pessoas em todo o mundo (OMS 1999).

Renast (2006) afirmou que milhares de mortes, centenas de milhares de mutilações e milhões de agravos produzidos pelo trabalho poderiam ser evitados, anualmente, uma vez que os diversos riscos à saúde e seus agravos já são suficientemente reconhecíveis.
Embora esta seja a era da informação, ao iniciar a carreira profissional, a maioria dos profissionais de enfermagem não tem a exata noção dos Riscos Ocupacionais envolvidos no exercício da profissão, ressalta Silva (1998).

Uma possível explicação para isto deve-se à recente importância dada aos riscos ocupacionais relativas ao exercício das profissões da área de saúde. A exemplo, Mendes et al (1991) reporta que a preocupação com os riscos biológicos surgiu somente a partir da epidemia de HIV/AIDS nos anos 80, quando foram estabelecidas normas para as questões de segurança no ambiente de trabalho.

Entendendo a Portaria º25 (29/12/1994)
A portaria nº. 25 (29/12/1994) destaca como principais classes de riscos ocupacionais:

a) riscos químicos (poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases, vapores e substâncias compostas ou produtos químicos em geral);
b) riscos biológicos (vírus, bactérias, protozoários, fungos e outros);
c) riscos ergonômicos e de acidentes (esforço físico intenso, levantamento e transporte manual de peso, exigência de postura inadequada, controle rígido de produtividade, imposição de ritmos excessivos, trabalho em turno e noturno, jornadas de trabalho prolongadas, monotonia e repetitividade, arranjo físico inadequado, máquinas e equipamentos sem proteção, ferramentas inadequadas ou defeituosas, probabilidade de incêndio ou explosão, entre outras situações causadoras de estresse físico e/ou psíquico ou acedentes);
d) riscos físicos (ruídos, vibrações, radiações ionizantes, radiações não ionizantes, frio, pressões anormais, umidade e calor) (Atan et. al. 2005).

Oliveira et. al (2009), de acordo com relatos de profissionais de enfermagem, propuseram a reclassificação dos riscos ocupacionais em quatro classes, a saber:

a) Classe I ou risco de nível laboratorial;
b) Classe II ou de risco relativos a estresse, depressão e outras doenças psicológicas;
c) Classe III ou de riscos químicos e biológicos;
d) Classe IV ou riscos relativos à segurança. Observa-se, assim, como inovação nesse sistema de classificação, o nivelamento entre os riscos químicos e biológicos e a importância do estado psicológico do profissional de saúde.

Os riscos ocupacionais a que estão sujeitos o pessoal da equipe de enfermagem têm sido alvo de estudo de muitos pesquisadores, por sua relevância e repercussões pessoais, sociais e econômicas. Os trabalhadores que desenvolvem suas atividades em instituições hospitalares são destaques entre os diversos grupos vulneráveis a riscos ocupacionais e ambientais, de acordo com vários trabalhos de pesquisa e de cooperação técnica envolvendo problemas de saúde, trabalho e ambiente (Mauro et. al., 2004). Neste sentido, a título de exemplo, pode-se destacar as pesquisas de, Alcântara et al (2005), Leitão et al (2008) e Zeitoune et al (2009) como importantes colaborações.
Alcântara et. al (2005) pesquisaram os riscos ocupacionais de profissionais de enfermagem quanto a doenças imunopreveníveis, analisando-se o perfil vacinal dos profissionais que atuavam em uma Unidade de Saúde da Família de Fortaleza, Estado do Ceará. Observou-se uma problemática, pois para cerca de dez patologias imunopreveníveis, a maioria dos profissionais não haviam sido vacinados, oferecendo grande risco ocupacional a esses profissionais.

Quais os riscos ocupacionais para os profissionais de enfermagem?

Leitão et.al.(2008) relataram os riscos ocupacionais enfrentados pelos profissionais de enfermagem na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no município de Fortaleza – CE. Neste setor, destacaram-se os riscos relativos aos ruídos provocados pelos aparelhos, como alarmes das bombas e respiradores e quanto aos fatores climáticos, devido a precariedade dos equipamentos de ar condicionados, expondo os profissionais e pacientes a altas temperaturas.

Além desses fatores, tal pesquisa apontou ainda como riscos a saúde dos profissionais: poeiras, gases, vapores, fadiga, estresse, e risco na manipulação de drogas e materiais cortantes como agulhas.
Zeitoune et. al. (2009) analisaram os riscos ocupacionais dos trabalhadores de enfermagem do setor de hemodiálise, em um hospital no Rio de Janeiro e relataram que a maioria dos trabalhadores de enfermagem, nesse hospital, recebeu cursos sobre os riscos ocupacionais, em especial, acerca dos riscos biológicos (contaminação viral por HIV e outras doenças virais, além de fungos, bactérias e outros micro-organismos) e riscos químicos (hipoclorito 12% e proxitante utilizados na desinfecção de equipamentos).
No contexto geral, as pesquisas desses autores apontam para o descontentamento dos profissionais de enfermagem, devido às condições insalubres e inseguras do trabalho no contexto hospitalar e da falta de política de saúde do trabalhador que, segundo Oliveira et al (2009), deve fazer parte da política geral de saúde.

O atual momento histórico aponta, sem dúvida, para a importância da reflexão acerca da ordem teórica e metodológica relacionadas com a questão da avaliação dos riscos ocupacionais, assim como do desenho e implementação de processos de intervenção efetivos à sua promoção, o que reflete conflitos nas relações de trabalho, interfere na satisfação do trabalhador, eleva os custos e contribui para o declínio da qualidade da assistência, afetando, a organização, trabalhadores e clientes (Barbosa et. al. 2003).

A prática no risco: uma inevitável realidade

Riscos biológicos

A equipe de enfermagem é uma das principais vítimas da exposição ocupacional a riscos biológicos. Quanto aos riscos biológicos, eles se referem ao contato do trabalhador com micro-organismos (principalmente vírus e bactérias) ou material infecto contagiante, os quais podem causar doenças como: tuberculose, hepatite, rubéola, herpes, escabiose e AIDS (Jansen, 1997).
Os principais métodos de contaminação são: manipulação de objetos, materiais perfuro-cortantes, contato com pessoas com doenças transmissíveis, contato com secreções e fluídos e erros de procedimentos (Nunes, 2009).

Riscos químicos

A legislação vigente (NR-9, MTE) refere que devemos considerar como agentes químicos as substâncias, compostos ou produtos que possam penetrar no organismo pela via respiratória nas formas de poeira, fumo, névoas, neblina, gases ou vapores, ou que, pela natureza da atividade de exposição, possam ter contato ou ser absorvidos pelo organismo através da pele ou por ingestão (Xelegati et. al., 2003).

Os produtos químicos são largamente utilizados em hospitais com diversas finalidades, como agentes de limpeza, desinfecção e esterilização. É empregado também como soluções medicamentosas e ainda ser utilizados como produtos de manutenção de equipamentos e instalações (Ciorlia et.al. 2007).
Ainda sobre os riscos químicos, Ciorlia et al (2007) ressaltam que estes, além de causarem danos à saúde dos trabalhadores, pode também provocar efeitos teratogênicos e abortogênicos em mulheres expostas. Relatam ainda a importância da exposição crônica à baixas doses, que pode constituir um risco para câncer, relatada por vários autores. Os principais agentes de dermatoses são antibióticos, antissépticos, desinfetantes, detergentes, luvas de borracha e sabões (Nichide, 2004). 

Riscos físicos

Os riscos ocupacionais físicos advindos do trabalho e que atingem os profissionais de enfermagem que atuam em unidades hospitalares, aborda os riscos físicos tais como aqueles provenientes da eletricidade, dos pisos escorregadios, ruídos, umidade, calor má iluminação radiações, ventilação inadequada, entre outros (Figueiredo 1992).

Os riscos atribuídos ao calor estão relacionados geralmente com ambientes hospitalares precários, onde não se tem a ventilação adequada. O calor como consequência é considerado um fator de risco para a infertilidade (Vélez et. al., 2001).
A iluminação é um fator essencial, principalmente nas salas cirúrgicas e no campo operatório. A má iluminação nestes casos pode acarretar graves prejuízos ao profissional e ao paciente. A iluminação adotada deve reproduzir fielmente a cor, de modo a permitir a identificação dos tecidos pelo cirurgião.
A umidade é outro fator a ser controlado no ambiente hospitalar, pois umidade excessiva é prejudicial, tendo assim que sempre tomar cuidado com as lavanderias, pois são os locais onde mais se faz uso de água dentro do ambiente hospitalar.

Um fator de risco no qual os profissionais de enfermagem devem sempre estar muito atentos é quanto as radiações ionizantes e não ionizantes provenientes de aparelhos de raios x, radiações gama e aceleradores lineares (radiações ionizantes) e as provenientes de luz ultra violeta, infravermelha empregada em fisioterapia e lasers.
Estas radiações aumentam muito os riscos de câncer, quando feita exposição excessiva (Landi et. al. 2010). A forma de diminuição dos riscos ocupacionais provenientes dessas radiações é através da manutenção do local o plano de amostragem, fornecer EPI e principalmente a capacitação os trabalhadores (Bernado et. al. 2010).

Outro risco ocupacional físico muito encontrado em hospitais são os provocados por ruídos. A exposição a níveis elevados de ruído por um longo período pode determinar comprometimentos físicos, mentais e sociais no indivíduo. Entre estas consequências, a mais definida e quantificada consiste em danos ao sistema auditivo. Os principais fatores que causam essa perturbação são as bombas de infusão, ventiladores mecânicos e alarmes. Entre as consequências do excesso de ruído, destacam-se danos ao sistema auditivo e insônia (Costa et. al. 1998).

Riscos psicoergonômicos

Os riscos ergonômicos e psicossociais são aqueles relacionados ao esforço físico intenso, levantamento e transporte manual de peso, exigência de postura inadequada, controle rígido de produtividade, imposição de ritmos excessivos, trabalho em turno e noturno, jornadas de trabalho prolongadas, monotonia e repetitividade, arranjo físico inadequado, máquinas e equipamentos sem proteção, ferramentas inadequadas ou defeituosas, probabilidade de incêndio ou explosão, entre outras situações causadoras de estresse físico e/ou psíquicos ou ascendentes (Smolander et. al. 2004).

Esses riscos ocupacionais nos profissionais de enfermagem podem causar vários malefícios como gastrites, úlceras, dores variadas, palpitações, agravamento da hipertensão arterial, transtornos de personalidade, entre muitos outros (Marziale et. al. 2002).

As escalas de trabalho em turnos geralmente adotadas são bastante variadas, e em uma mesma empresa pode haver várias escalas. A hipótese destacada pelo referido estudo é a de que provavelmente o pior desempenho observado em atividades em plantões ou regimes de trabalho noturnos estaria associado à queda ou diminuição na expressão comportamental de alguns ritmos biológicos, com especial ênfase ao da temperatura corporal.

A partir de estudos acerca do trabalho noturno, verificou-se uma série de alterações no ritmo biológico do trabalhador (ciclo circadiano; temperatura corporal; nível de glicose no sangue; grau de fadiga; adaptação ao trabalho; rendimento; duração do sono; grau de retenção da informação).
As consequências diretas foram: fadiga; desadaptação à atividade; baixo rendimento; baixa capacidade de conciliar o sono normal; maior índice de erros detectados; desequilíbrio nutricional; limite reduzido de responsabilidade; aumento ou aparecimento de patologia de natureza somática; estresse (Leitão et. al. 2008).

As medidas ergonômicas relacionadas à postura no ambiente de trabalho, assim como as soluções implementadas de modo preventivo são mais positivas, especialmente quando associadas à seleção adequada do trabalhador e à utilização de técnicas corretas no processo de trabalho.
Essa prática é comumente realizada inadequadamente pelos profissionais de enfermagem, daí a frequência de problemas de saúde no trabalho. Deve-se ainda considerar o trabalho sentado, no qual a incidência de hérnias de disco é três vezes maior que no trabalho em pé, e os esforços no sentido de ampliar os conhecimentos básicos de ergonomia dos profissionais da área de saúde. (Mauro et. al. 2004).

A prática do risco: papel da informação

Como já salientado, muitos profissionais se expõem aos riscos ocupacionais porque a sua prática em si, inevitavelmente, já é de risco. No entanto, muito do que se observa, concernente ao aumento da incidência de exposição aos riscos, deve-se a própria ação do profissional, neste sentido.
Lista-se como fatores que colaboram para a prática profissional, focada na exposição ao risco ocupacional: falta de informação, desatenção às normas de segurança e saúde ocupacional, não utilização de equipamentos de segurança, muitas vezes pelo incomodo que estes geram, não percepção ou aceitação da existência dos riscos ocupacionais e ausência de políticas públicas que implementem normas ou recursos (financeiros ou matérias) voltados para o assunto.
Enfocando a atuação do profissional de enfermagem no contexto dos riscos ocupacionais, Marziale (2002), relata que o principal fator que contribui para a exposição ocupacional dos trabalhadores de enfermagem aos riscos biológicos em especial aos acidentes com perfuro cortante, é a falta de adoção de medidas para prevenção e controle desse tipo de acidentes.
Considerando o manejo adequado dos acidentes com material biológico um importante fator na redução na taxa de infecção, Litjen et al (2001) reporta a importância da conscientização dos profissionais da área da saúde. Nesse sentido, Marziele et al (2004) defende a prática de ações educativas permanentes, uma vez que doenças como HIV e hepatite C estão desprovidas de imunoprofilaxia pré-exposição e de medidas para a redução do risco de transmissão pós-exposição.

A informação também é destaque quando o assunto é risco químico, já que as principais precauções para evitar contaminação por produtos químicos são, em primeira instância, ações de cunho informativo, a saber: a) manutenção da rotulagem do fabricante na embalagem original; b) identificação legível do recipiente que contenham produtos químicos, colocando data, concentração e nome do responsável, além da ficha descritiva detalhada; c) capacitação dos trabalhadores, através de cursos; d) sinalização adequada. (Campos 2007).

Conclui-se, assim, que a prática de ações permanentes de educação em saúde (treinamentos, cursos, palestras, cartazes informativos) deve promover a prevenção de incidentes/acidentes de trabalho, diminuindo a exposição dos trabalhadores aos riscos que inevitavelmente existirão, também deve dirimir atitude, em caso de incidente/acidente, permitindo a estes, aptidão para os primeiros socorros no local de trabalho, pois alguns agravos à saúde dos trabalhadores são considerados de urgência e de emergência médica, podendo deixar sequelas.

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