Urinálise: O que é?

Urinálise: O que é

A urinálise compreende a análise macroscópica e físico – química da urina e o exame microscópico do sedimento urinário. A primeira análise corresponde à avaliação quantitativa da cor, turvação, volume e densidade específica e de componentes químicos determinados através de tiras reativas. No sedimento urinário é possível identificar elementos celulares, micro-organismos, cilindros e cristais.


As amostras de urina são obtidas através de três mecanismos diferentes :

Micção espontânea

As amostras são eliminadas espontaneamente e coletadas assim que o animal urina, são mais simples de serem obtidas porém sofrem contaminação de órgãos genitais e ou do trato reprodutivo.

Cateterização

A obtenção da amostra se processa através da inserção de uma sonda via uretral devendo ser esterilizada e inserida corretamente.

Cistocentese

É utilizada para a coleta de urina estéril em cães e gatos, realizada com o auxílio de ultrassom evitando assim a perfuração da bexiga.


Após a coleta, a análise é realizada em no máximo 4 horas, em caso contrário deve – se armazenar a mesma em geladeira com presença de algumas gotas de formol para conservação da mesma. A presença do formol mascara algumas características da urina, não revelando, por exemplo, a presença de micro-organismos (bactérias).


Exame Físico da Urina:

Cor

A cor da urina classificada como normal varia de quase incolor a âmbar intenso; a intensidade da cor reflete principalmente o grau de concentração da urina e consequentemente o conteúdo de pigmentos (urocromos) da urina. A primeira urina do dia normalmente encontra-se mais concentrada e escura do que as demais ao longo do dia.

Várias anormalidades provocam alteração de coloração da urina.

Coloração Avermelhada: Hemoglobinúria (presença de hemoglobina na urina), Mioglobinúria (presença de sangue proveniente dos músculos) e Hemorragia do trato urinário levam a cor vermelha com presença de proteínas no exame químico. A diferenciação entre as três condições requer exame de sedimento de urina fresca.


Coloração Marrom – Esverdeada: Bilirrubinúria (presença de bilirrubina na urina) associada a hepatopatia ou hemólise intensa. A presença de bilirrubina é comprovada pelo exame químico e de sedimento urinário revelando a presença de cristais de bilirrubina.
Além dessas alterações o uso de medicamentos pode provocar alterações da urina da amostra de urina sendo necessário a obtenção de uma completa anamnese e histórico clínico do paciente.

Turbidez

O grau de turbidez reflete a quantidade de partículas suspensas na urina e varia de acordo com a espécie. Em cães a urina é normalmente límpida; em felinos ligeiramente turva devido a presença de gordura; em equinos muito turva devido ao muco secretado pelas glândulas da pelve renal. Presença de cilindros, células inflamatórias e cristais levam a um maior grau de turvação sendo necessário a realização do exame de sedimento.

Densidade Específica


A densidade urinária, determinada por refratometria, avalia a capacidade dos túbulos renais em concentrar ou diluir a urina, portanto, é classificado como um teste de função tubular, sendo a parte mais importante do exame físico da urinálise.

Exame Químico da Urina:


O exame químico é geralmente quantitativo sendo determinado por tira reativa. Existem vários tipos de tiras reativas no mercado, sendo possível a determinação de vários constituintes, porém são destinadas a uso humano sendo limitante para uso veterinário.


Proteínas

A presença de proteínas na urina (proteinúria) possui significado dependente do exame de sedimentoscopia. Dentre suas diversas causas destaca-se achado secundário de hemorragia, inflamação ou degeneração tubular renal, caso não haja indicadores dessas causas no exame de sedimento deve -se pensar em lesão glomerular e extravasamento.


Glicose

A presença de glicose na tira reativa deve ser realizada paralelamente a concentração de glicose no soro. A principal causa de sua presença na urina se deve ao excedente do limiar tubular renal de reabsorção de glicose. A hiperglicemia pode ser pós – prandial secundária ao stress (bovinos e gatos) ou reflexo de diabetes melito.


Cetonas

As cetonas aparecem na urina quando o grau de cetoacidemia excede o limiar renal de absorção da filtração glomerular. Cetoacidemia e cetonúria refletem a produção excessiva de cetonas que ocorre quando o excesso de gordura de reserva excede a capacidade metabólica do fígado de oxida – las ou reacondiciona – las em lipoproteínas.


Bilirrubina

É indicativo de distúrbios hepáticos, determinando apenas bilirrubina conjugada ( essa transformação de bilirrubina livre em conjugada ocorre exatamente no fígado).


Sangue oculto

Hemorragia, Hemoglobinúria e Mioglobinúria são as principais causas da presença de sangue oculto na tira reagente sendo confirmado pelo achado de hemácias no sedimento urinário. Caso não haja hemorragia deve -se diferenciar hemoglobinúria de mioglobinúria a partir da realização de hemograma e histórico clínico. Hemoglobinúria resulta de hemólise ( destruição de hemácias alteradas) intra vascular (dentro dos vasos sanguíneos) ocasionando uma anemia grave ; A Mioglobinúria ocorre devido a intensa lesão muscular acompanhada de elevação dos valores de enzimas musculares (AST, CK E LDH).


pH

Normalmente a urina é ácida em carnívoros e alcalina em herbívoros. O pH mais elevado em carnívoros costuma ser apresentado em cistite provocada por micro-organismo urease positivo sendo confirmada pelo exame de sedimentoscopia. Em ruminantes o pH mais ácido denota situações de deslocamento de abomaso, alcalose, hipocalemia e hipocloremia. 

Exame Microscópico de Sedimento Urinário:


O exame microscópico do sedimento urinário é de extrema importância para o reconhecimento de doenças do trato urinário e para auxílio ao diagnóstico de doenças sistêmicas. A melhor amostra de urina para a realização da sedimentoscopia é a coletada por cistocentese, fornecendo uma urina estéril. A urina de cães e gatos sadios não contém muitos sedimentos, porém os animais doentes podem apresentar células, micro-organismos , cilindros, cristais, gordura e substâncias contaminantes em grande quantidade.


Eritrócitos

Geralmente eritrócitos na urina indicam sangramento de algum local do trato urinário ou genital. Contaminações, podem ser frequentes, por urinas coletadas por micção espontânea ou compressão manual da bexiga de animais com qualquer processo hemorrágico no sistema genital.


Leucócitos

Uma grande quantidade de células brancas no sedimento é indicativo de processo inflamatório de aparelho urinário ou genital.


Células epiteliais escamosas

Essas células são derivadas da uretra distal, vagina, vulva ou prepúcio sendo encontradas ocasionalmente em amostras eliminadas espontaneamente, não apresentando significado clínico.


Células Epiteliais Uroteliais (Transicionais)

São provenientes da uretra proximal, bexiga, ureteres, pelve renal e túbulos renais. Pequena quantidade dessa células no sedimento urinário é classificado como normal devido a descamação de células velhas. Um aumento do número dessas células pode ser ocasionada pela cateterização ou em casos de inflamação do trato urinário.

Espermatozoides

Os espermatozoides são encontrados no exame de sedimento urinário de machos inteiros não possuindo significado clínico.


Micro-organismos

As bactérias são os micro-organismos mais facilmente encontrados na urina, sendo raros os casos de aparecimentos de fungos e leveduras.A urina normal é livre de micro-organismos podendo ser contaminada pela coleta por micção espontânea. 

O fato das bactérias se proliferarem em temperatura ambiente, mostra-nos que a análise da urina deve ser realizada logo após a coleta, em até no máximo 4 horas, em caso contrário manter a amostra sob refrigeração. Presença de um grande número de bactérias paralelamente ao número de leucócitos é indicativo de infecção do trato urinário ou genital com inflamação, já a ausência de leucócitos com grande quantidade de bactérias é resultado de contaminação da amostra.

Parasitas

Os principais parasitas que podem ser encontrados em amostras de urina são aqueles relacionados ao trato urinário como Capillaria plica e Dioctophyma renale.


Gotículas de gordura

As gotículas de gordura podem ser originadas pela contaminação da urina por lubrificantes de sondas ou de superfícies oleosas de recipientes coletores. Em gatos ocorre lipidúria por que seus rins contém grande quantidade de lipídeos, nas demais espécies pode ser em decorrência de diabetes melito, obesidade e hipotireoidismo. 

Cilindros

Os cilindros são formados no túbulo contorcido distal e ducto coletor. A acidez e concentração da urina levam a precipitação de proteínas, as quais são incorporadas pelas células esfoliativas dos túbulos. Por se formarem nos túbulos renais acabam incorporando a forma dos mesmos tendo os lados paralelos.


Cilindros Hialinos

Na urina de animais sem lesão renal podem ser encontrados poucos cilindros hialinos. O aumento de quantidade desses cilindros pode ser originado por irritação renal moderada, febre, baixa perfusão renal, proteinúrias renais e pré – renais, após exercício extenuante ou anestesia geral.


Cilindros Granulosos

Presentes em grande quantidade nas doenças renais agudas, sendo mais específicos em lesão tubular renal do que os cilindros hialinos.


Cilindros Celulares

Estes cilindros podem conter eritrócitos (sangramentos renais), leucócitos (nefrites agudas ou condições tóxicas) ou células epiteliais (células epiteliais intactas descamam nos túbulos renais e saem na urina antes de degenerarem).


Cilindros Gordurosos

Cilindros que possuem gotículas de gordura são considerados comuns em gatos devido ao parênquima renal dos mesmos ser rico em lipídeos, em cães são vistos em casos de diabetes melito.


Cilindros Céreos

Indicam degeneração tubular crônica, possuem semelhança com os cilindros hialinos porém são mais largos e possuem extremidades quadradas em vez de arredondadas.

Cristais

Os tipos de cristais são formados por alteração de pH, concentração e temperatura urinária, além da solubilidade dos elementos da urina. Os cristais que se formam na bexiga podem levar ao desenvolvimento de cálculos urinários (urólitos).


Fosfato Triplo (Estruvita)

Encontram -se em urina alcalina ou ligeiramente ácida, possuem aparência de “tampa de caixão” podendo assumir outras formas. São encontrados em animais que apresentam urólitos de estruvita associados a infecção bacteriana do trato urinário.


Fosfato Amorfo

Comuns em urina alcalina, não apresentam significado clínico.


Carbonato de Cálcio

Comuns em urina de cavalos, podem usualmente ser encontrados em urina de cães e gatos.


Urato Amorfo

Encontrados em urina ácida, apresentando a mesma aparência que os cristais de fosfato amorfo, não possuindo também significado clínico.


Oxalato de Cálcio

Geralmente encontradas em urinas ácidas e neutras, grande quantidade desses cristais é indicativo de que o animal possa desenvolver urolitíase por oxalato.


Bilirrubina

A presença desses cristais sugerem alterações hepática ou biliar severa e anemia hemolítica severa. A urinálise é um dos exames mais importantes para avaliação de alterações renais além da creatinina (o exame mais sensível para detecção de lesão renal). A urinálise é dividida em 3 fases: Exame Físico avaliando volume, aspecto, densidade e cor; Exame Químico realizado através da fita reativa revelando a presença de Proteína, Eritrócitos, Ph, Bilirrubina, Glicose e Cetonas; e o Exame de Sedimentoscopia detectando a presença de células, cilindros, cristais e micro-organismos. A correta coleta e armazenagem da urina para posterior análise leva – nos a resultados mais fidedignos, confirmando ou descartando possíveis diagnósticos.

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