A concepção freudiana da sexualidade infantil

A sexualidade das crianças é um tema difícil de ser abordado, pois apesar de Freud ter chocado a sociedade vienense cem anos atrás, ao propor a ideia de uma infância que se afastava da tradicional noção de pureza e de felicidade ímpar, trazendo à tona uma criança dotada de afetos, desejo e conflitos, ainda hoje temos dificuldade em aceitar a sexualidade infantil proposta pelo fundador da psicanálise.

A sexualidade proposta por Freud é uma sexualidade ampliada e radicalmente diferente da concepção naturalista predominante no final do século XIX, quando a normalidade sexual era definida pela sexualidade adulta e a consumação do ato sexual referida a fins de reprodução. A masturbação infantil, a simples busca do prazer sexual, ou ainda a impossibilidade do ato sexual (como em alguns casos de impotência) eram consideradas condutas anormais (perversas) ou sinais de degenerescência.

Sobre tal pano de fundo, Freud (1905/1976a) propõe a ideia de uma sexualidade que surgiria desde os primórdios da constituição do psiquismo e seria radicalmente diferente da então aceita noção de instinto sexual.

A concepção clássica de instinto tem como modelo um comportamento que se caracteriza por sua finalidade fixa e pré-formada, com um objeto e objetivo determinado, enquanto a noção freudiana de sexualidade defende a ideia de que a sexualidade humana não é instintiva, pois o homem busca o prazer e a satisfação através de diversas modalidades, baseadas em sua história individual e ultrapassando as necessidades fisiológicas fundamentais. Assim, se a sexualidade se inicia com a anatomia (no nascimento), sua conquista depende de um longo percurso durante a construção da subjetividade da criança.

Neste trabalho iremos demonstrar as etapas do desenvolvimento psicossexual, nomeando-as e as circundando com uma aproximada faixa etária, assim como exemplificando possíveis fixações do adulto nestas organizações sexuais parciais e as marcantes condutas daí decorrentes.

Para Freud (1914 – 1916) a Psicanálise é ao mesmo tempo um modo particular de tratamento do desequilíbrio mental e uma teoria psicológica que se ocupa dos processos mentais inconscientes, as experiências infantis são fundamentais para moldar a personalidade. Freud dividiu a mente em três regiões: inconsciente, consciente e pré consciente. Cada um possui suas próprias características:


Consciente: O sistema consciente tem a função de recepcionar as informações provenientes das “excitações” vindas do exterior e do interior do indivíduo, que ficam registradas de acordo com o prazer ou desprazer que elas causam, mas sem conservar nenhum traço definitivo nessas informações.

Inconsciente: É dinâmico, seus conteúdos e processos mentais são mantidos fora da consciência consciente por meio das forças de censura e repressão. O inconsciente está relacionado a impulsos instintivos.

Pré-consciente: Compreende eventos, processos e conteúdos mentais que podem ser trazidos a consciência pelo ato de concentrar a atenção. O pré consciente representa uma interface entre as regiões conscientes e inconscientes da mente.


O autor também atribuiu o modelo estrutural do aparelho psíquico, sendo a pedra fundamental da psicologia conhecidas como, id, ego e superego. Para o autor:

Id: Regido pelo “princípio do prazer”, tem a função de descarregar as tensões biológicas, é a reserva inconsciente dos desejos e impulsos de origem genética e voltados para a preservação e propagação da vida.

Superego: É um vigilante moral, contem os valores morais e atua como juiz moral. Também inconsciente, o Superego faz a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem ao Id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos. O Superego ou censura desenvolve-se em um período que Freud designa como período de latência, situado entre os 6 ou 7 anos e o inicio da puberdade ou adolescência. Nesse período, forma-se nossa personalidade moral e social.

Ego: É a consciência, pequena parte da vida psíquica, subtraída aos desejos do Id e à repressão do Superego. Lida com a estimulação que vem tanto da própria mente como do mundo exterior. Racionaliza em favor do Id, mas é governado pelo “princípio de realidade”, ou seja, a necessidade de encontrar objetos que possam satisfazer ao Id sem transgredir as exigências do Superego. O Ego é pressionado pelos desejos insaciáveis do Id, a severidade repressiva do Superego e os perigos do mundo exterior.


Freud (1914 – 1916), autor da primeira teoria psicanalítica do desenvolvimento propôs estágios sequenciais da sexualidade infantil. Este passa por sucessivos tipos de caráter: oral, anal e genital. Pode sofrer regressão de um dos dois últimos a um ou outro dos dois anteriores, como pode sofrer fixação em qualquer das fases precoces. Essas fases se desenvolverão a partir dos primeiros meses de vida e os 5 ou 6 anos de idade, e estão ligadas ao desenvolvimento do Id:


1- Fase oral: o primeiro estágio do desenvolvimento no qual o desejo e o prazer localizam-se primordialmente na boca e na ingestão de alimentos e o seio materno, a mamadeira, a chupeta, os dedos são objetos do prazer. O principal objetivo desta fase é estabelecer um relacionamento de dependência com sujeitos que proporcionam nutrição e sustento, obter uma expressão confortável e a gratificação de necessidades libidinais orais sem conflitos excessivos ou ambivalência com desejos sádicos orais.

2- Fase anal: estágio do desenvolvimento psicossexual motivado pela maturação do controle neuromuscular sobre os esfíncteres, principalmente anais onde o desejo e o prazer localizam-se primordialmente.

3- Fase uretral: espaço de transição entre o estágio anal e fálico do desenvolvimento, compartilham algumas características entre esses estágios, o erotismo uretral é usado para se referir ao prazer de urinar.

4- Fase genital ou fase fálica: o desejo e o prazer localizam-se primordialmente nos órgãos genitais e nas partes do corpo que excitam tais órgãos. O pênis torna-se o principal órgão de interesse para as crianças de ambos os sexos, sendo vista como castração a ausência do pênis nas meninas. O objetivo desta fase é concentrar o interesse erótico na área genital e em suas funções.

5- Fase de latência: a fase de relativa tranquilidade ou inatividade do impulso sexual durante o período de resolução do complexo de Édipo até a puberdade. O principal objetivo desta fase é a integração das identificações edipianas e a consolidação da identidade e dos papeis sexuais.

6- Fase genital: esta fase estende-se no início da puberdade até que o indivíduo atinja a idade adulta jovem. O objetivo principal dessa fase é a separação final da dependência e do apego aos pais e o estabelecimento de relações de objetos maduros e não incestuosas.


Para Freud. (1914 – 1916), Aqueles que se detém em seu desenvolvimento emocional, e por algum motivo se fixam em qualquer uma das fases transitórias constituem tipos e subtipos de personalidade nomeados segundo a fase correspondente de fixação.


Oral: Oral receptivo, pessoa dependente, espera que tudo lhe seja atribuída sem qualquer reciprocidade; ou o Oral sadístico, o que se decide a empregar a força e a astúcia para conseguir o que deseja. Explorador e agressivo não esperam que alguém lhe dê voluntariamente qualquer coisa.

Anal: Anal sadístico é impulsivamente avaro, e sua segurança reside no isolamento. São pessoas ordenadas e metódicas, parcimoniosas e obstinadas.

Genital: O tipo genital é a pessoa plenamente desenvolvida e equilibrada.
O autor cita que em cada fase do desenvolvimento libidinal, componentes específicos dos impulsos evocam defesas características do ego conhecidas como mecanismos de defesa que são processos subconscientes que permitem à mente encontrar uma solução para conflitos não resolvidos ao nível da consciência. Os mecanismos de defesa são aprendidos na família ou no meio social externo a que a criança e o adolescente estão expostos.


Freud (1914 – 1916) nomeia que quando esses mecanismos conseguem controlar as tensões, nenhum sintoma se desenvolve, apesar de que o efeito possa ser limitador das potencialidades do Ego, e empobrecedor da vida instintual. Mas se falham em eliminar as tensões e se o material reprimido retorna à consciência, o Ego é forçado a multiplicar e intensificar seu esforço defensivo e exagerar o seu uso. É nestes casos que a loucura, os sintomas neuróticos são formados.


Segundo Freud (1914 – 1916) os mecanismos de defesa são:


Repressão

É afastar ou recalcar da consciência um afeto, uma ideia ou apelo do instinto. Um acontecimento que por algum motivo envergonha uma pessoa pode ser completamente esquecido e se tornar não evocável.


Defesa de reação

Ostenta um procedimento e externar sentimentos ambos opostos aos impulsos verdadeiros, quando estes são inconfessáveis.


Projeção

Atribui ao outro um desejo próprio, ou atribuir a alguém, algo que justifique a própria ação.


Regressão

Retornar a atitudes passadas que provaram ser seguras e gratificantes, e às quais a pessoa busca voltar para fugir de um presente angustiante. Devaneios e memórias que se tornam recorrentes, repetitivas. Aplica-se também ao regresso a fases anteriores da sexualidade.

Substituição

O inconsciente oferece à consciência um substituto aceitável por ela e por meio do qual ela pode satisfazer o Id ou o Superego. Os substitutos são imagens (representações analógicas dos objetos do desejo) e formam o imaginário psíquico que, ao ocultar e dissimular o verdadeiro desejo, o satisfaz indiretamente por meio de objetos substitutos.

Sublimação

A Ética pede a renúncia às gratificações puramente instintuais por outras em conformidade com valores racionais transcendentes. A sublimação constitui a adoção de um comportamento ou de um interesse que possa enobrecer comportamentos que são instintivos de raiz.


Transferência

Freud afirmou que a ligação emocional que o paciente desenvolvia em relação ao analista representava a transferência do relacionamento que aquele havia tido com seus pais e que inconscientemente projetava no terapeuta. O impasse que existiu nessa relação infantil criava impasses na terapia, de modo que a solução da transferência era o ponto chave para o sucesso do método terapêutico.

Para o autor certos princípios como a resistência, a transferência e a contratransferência estão no centro da psicanálise como tratamento. Freud relata que muitos pacientes muitas vezes resistem à tentativa de cura, em outros casos há a transferência que ocorre quando o paciente desloca para o analista desejo e sentimentos que mantinha em relação à pessoa do passado. Algumas resistências emergem em decorrência de se experimentar o analista como uma figura familiar do passado, havendo uma tentativa de desafiar o controle parental percebido.

Segundo o autor a contratransferência é o oposto, os sentimentos do terapeuta para com o cliente, com base em uma mistura das características e qualidades reais do paciente associadas a figuras do passado do terapeuta.

De muito aprendizado e valia o conteúdo do trabalho, pois através dos pensamentos e teorias de Freud podemos entender várias questões em que se aprofundarmos veremos o paciente em seu contexto psicológico, onde muitas vezes analisamos a dor em si através dos sintomas, e dentro da teoria de Freud pode-se perceber que muitas das doenças são mais psicológicas do que patológicas, muitas vezes quando não cuidado a parte psicológica passa a ser uma doença em que raramente se descobre a causa e o por que. Através dessa matéria podemos perceber o ser humano dentro de sua descoberta desde sua infância em que acarreta e traz para o resto da vida problemas não resolvidos na infância.

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