A Divisão dos Gêneros Literários

A Divisão dos Gêneros Literários

O gênero dramático imitava o homem em sua ação; o lírico caracterizava-se pelo seu aspecto subjetivo e não era mimético; já o épico participava dos dois procedimentos anteriores. Mais tarde, no livro X, abandonou a ideia de mimeses como distinção entre os gêneros. Começa aqui a considerar todos os três como imitação da natureza.

A definição por Aristóteles

Outro filósofo grego, posterior a Platão que refletiu sobre os gêneros foi Aristóteles (século IV a.C.). No livro Poética realizou uma profunda investigação a respeito da estética, da retórica e da poética, reconhecendo a existência dos três gêneros já mencionados por Platão. 

Para ele, a divisão dos gêneros deve ser feita pela constatação do conteúdo e da função global deste conteúdo na obra literária. Ou seja, o gênero deve assim ser considerado se a forma estiver em consonância com o conteúdo e como este conteúdo é comunicado ao leitor.

A visão de Horácio sobre gêneros literários

Horácio, poeta latino que viveu de 65 a.C. a 8 a.C., em Epistula ad Pisones, também faz menção aos gêneros literários. Segundo ele, cada poeta deve adaptar os assuntos tratados ao ritmo, tom e métrica adequada ao estilo próprio de cada gênero e que o hibridismo não é permitido. 

De acordo com essa teoria, a obra literária tinha uma função moral e didática, cujas regras deveriam ser rigidamente respeitadas, de acordo com os modelos ideais.

O Renascimento recuperou os conceitos de gêneros apresentados por Aristóteles e Horácio. Para os críticos da época, a poesia deveria atingir a universalidade, seguindo os modelos prefixados. O conceito de imitação foi extremamente difundido, interpretado como cópia da realidade e não como recriação. Nessa época, eram considerados gêneros maiores o lírico, o épico e o dramático. Esses se subdividiam em menores e possuíam suas próprias regras.

No período denominado Neoclassicismo ou Classicismo Francês, século XVII e início do Século XVIII, os princípios do Renascimento foram confirmados. Para eles, cada gênero deveria possuir seu estilo próprio, seus temas específicos e seus objetivos peculiares. 

Nessa época, a razão e o bom senso deveriam predominar sobre a emoção. Alguns gêneros, então, eram mais valorizados que outros. Podemos observar a elevação da epopeia e da tragédia em detrimento da lírica e da comédia.

O conceito no século XVIII

Em meados do século XVIII, surge o movimento alemão denominado Sturm und Drang (tempestade e ímpeto) e questiona a posição rígida do Neoclassicismo, substituindo a teoria tradicional dos gêneros pela crença na autonomia de cada obra literária. 

Surge, então, a doutrina romântica que acreditava que a verdade e a beleza residiam na síntese dos contrários. Dessa forma, a obra literária deveria ser autônoma e valorizada por suas inovações formais, híbridas e desconhecidas. Surgem outras formas de gênero, como a tragicomédia, o drama e o romance.

A partir do século XIX, os estudos sobre os gêneros assumem novas perspectivas. 

Destaca-se o crítico Brunetière (1849-1906), que procura comparar o conceito de gênero aos organismos vivos, com nascimento, crescimento, morte ou transformação, obedecendo à ordem da evolução natural da espécie. Vejamos uma síntese feita por Vitor Manuel de Aguiar e Silva (1962, p.216) sobre as ideias de Brunetière:

“Tal como algumas espécies biológicas desaparecem, vencidas por outras mais fortes, e mais bem apetrechadas, assim alguns gêneros literários morreriam, dominados por outros mais vigorosos. A tragédia clássica teria sucumbido ante o drama romântico, exatamente como, no domínio biológico, uma espécie enfraquecida sucumbe perante uma espécie forte.”

Nessa mesma época surgem as divisões cíclicas como as de Vitor Hugo, de Jean Paul Richter, de E. Bouvet. Vitor Hugo, os gêneros representam estágios da vida humana: o lirismo é a infância, a épica é a fase da virilidade e da luta e o drama corporifica os tempos modernos. Bouvet segue o mesmo pensamento, mas não distingue as fases como idades, mas como atitudes que o homem assume perante a existência e o mundo. Richter por sua vez estabelece os mesmos gêneros fundamentais numa sequência diversa: epopeia, drama e lirismo.

Podemos perceber que, com a evolução histórica, as tentativas de sistematização dos gêneros começam a fragilizar-se. Há, em verdade, pontos de convergência entre as concepções, assim como as divergências também estão muito presentes, o que torna inviável uma solução uniforme ou a universalização do conceito de gêneros literários.

Conheça a classificação moderna dos gêneros literários

Com o intuito apenas de apresentar uma sistematização mais didática, vejamos abaixo a classificação moderna dos gêneros literários, os quais estudarão daqui em diante, enfocando as modalidades mais frequentemente encontradas nas obras da literatura mundial.

Gênero épico ou narrative

Epopeia >romance>conto>novela> fábula e apólogo > crônica

Gênero dramático

Tragédia > comédia > tragicomédia > drama > auto > farsa

Gênero lírico

Elegia > ode > canção > égloga > idílio > soneto > balada > rondó

Nunca é demais lembrar que essa divisão é puramente didática e que diante de uma obra literária é possível observar uma íntima aproximação com um ou mais dos gêneros acima citados. 

É o que chamamos de hibridização entre os gêneros. Uma crônica, por exemplo, pode ser um texto narrativo, com traços poéticos e/ou ensaísticos. É claro que há uma predominância ou uma aproximação maior com um dos gêneros. O que torna possível a classificação de cada obra diante dessa divisão.

Se formos analisar uma obra da literatura contemporânea, teremos mais dificuldade em classificá-la nesse ou naquele gênero. 

A contemporaneidade na definição dos gêneros

A contemporaneidade é marcada pela hibridização, pela mistura das coisas, graças às vanguardas modernistas que preconiza a beleza estética na fusão de elementos que, tradicionalmente, não combinam. Dessa forma, a linha que divide as obras em gêneros literários fica cada vez mais tênue, dificultando uma classificação precisa.

Para Bakthin, porém, essa imprecisão data de muito tempo. Segundo ele, os gêneros literários tanto na Antiguidade como na época contemporânea, sempre foram estudados pelo ângulo artístico-literário de sua especificidade, das distinções diferenciais intergenéricas (nos limites da literatura), e não enquanto tipos particulares de enunciados que se diferenciam de outros tipos de enunciados, com os quais, contudo tem em comum a natureza verbal (linguística) (BAKHTIN, 2000, p. 280).

Hoje, então, devemos pensar no gênero literário como um fenômeno histórico que é vinculado a uma cultura e uma sociedade e pensar a hibridização não só entre as obras literárias, mas a fusão dessas com outras artes (teatro, cinema, artes plásticas), numa relação de interartes.

Isso não quer dizer que o estudo dos gêneros literários ou sua conceituação sejam completamente descartáveis e inúteis. Ao contrário, é necessário pesquisar sobre as formas literárias numa perspectiva diacrônica e sincrônica para que se possa analisar uma obra com mais autoridade e segurança. 

Não podemos negar a importância das teorias anteriores, visto que foi a partir delas que se pode desenvolver e chegar ao que temos hoje. No entanto, é importante também não se ater às classificações antigas, às atribuições de cada gênero a determinada obra como se essa fosse pura, sem relações com outros gêneros.

Hoje, mais do que apontar o gênero a que pertence um texto literário, compete à análise literária observar o quanto é importante a hibridização do mesmo e o efeito que essa mistura pode provocar no leitor.

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