A importância da psicomotricidade para Educação Infantil

Percebe-se que a psicomotricidade é uma ciência fundamental no desenvolvimento da criança, em que a mesma deve ser estimulada sempre para que se possa ter uma formação integral, uma vez que o movimento para a criança significa muito mais que mexer com o corpo: é uma forma de expressão e socialização de ideias, ou até mesmo a oportunidade de desabafar, de soltar as suas emoções, vivenciar sensações e descobrir o mundo.

Para alcançarmos um bom desenvolvimento psicomotor da criança as atividades precisam ser bem elaboradas e executadas de maneira a proporcionar-lhe prazer ao realizá-las.

O que é psicomotricidade?

A Psicomotricidade nada mais é que se relacionar através da ação, como um meio de tomada de consciência que une o ser corpo, a mente e o espírito. A Psicomotricidade está associada à afetividade e à personalidade, já que o indivíduo utiliza seu corpo para demonstrar o que sente. (LIMA; BARBOSA, 2007)

Ernest Dupré, em 1907, introduziu a psicomotricidade no contexto científico, enunciando a lei que surgiu do seu trabalho. Em 1909, surgiu o termo psicomotricidade,quando Dupré introduziu os primeiros estudos sobre a debilidade motora nos débeis mentais. (SABOYA, 1995)

Sociedade Brasileira de Psicomotricidade

A Sociedade Brasileira de Psicomotricidade a conceitua como sendo uma ciência que estuda o homem através do seu movimento nas diversas relações, tendo como objeto de estudo o corpo e a sua expressão dinâmica. A Psicomotricidade se dá a partir da articulação movimento/ corpo/ relação. 

Diante do somatório de forças que atuam no corpo – choros, medos, alegrias, tristezas, etc. – a criança estrutura suas marcas, buscando qualificar seus afetos e elaborar as suas ideias. Constituindo-se como pessoa.

Diversos autores apresentaram conceitos relacionados à psicomotricidade. 

De acordo com Vayer (1986), a educação psicomotora é uma ação pedagógica e psicológica que utiliza os meios da educação física com o fim de normalizar ou melhorar o comportamento da criança. Segundo Coste (1978), é a ciência encruzilhada, na qual se cruzam e se encontram múltiplos pontos de vista biológicos, psicológicos, psicanalíticos, sociológicos e linguísticos.

A Psicomotricidade contribui de maneira expressiva para a formação e estruturação do esquema corporal e tem como objetivo principal incentivar a prática do movimento em todas as etapas da vida de uma criança. Por meio das atividades, as crianças, além de se divertirem, criam, interpretam e se relacionam com o mundo em que vivem. Por isso, cada vez mais os educadores recomendam que os jogos e as brincadeiras ocupem um lugar de destaque no programa escolar desde a Educação Infantil. (LIMA; BARBOSA, 2007)

Segundo Barreto (2000, p. 1), “O desenvolvimento psicomotor é de suma importância na prevenção de problemas da aprendizagem e na reeducação do tônus, da postura, da direcionalidade, da lateralidade e do ritmo”.

Entendendo as três fases do esquema corporal

Oliveira (1992, p. 58), citando Lê Boulch diz que o esquema corporal passa por três fases distintas, a saber:

Corpo Vivido: 

corresponde à fase sensório-motora de Piaget, começa nos primeiros meses de vida, nela o bebê ainda não tem noção do “eu”, confundindo-se com o meio e seus movimentos são atividades motoras que não são pensadas para serem executadas.

Corpo percebido: 

corresponde ao período pré-operatório de Piaget, começa por volta dos dois anos quando a criança passa a perceber-se, e tem-se o início da tomada de consciência do “eu”. Diferencia-se do meio, organizando o espaço levando em conta o seu próprio corpo, começa assim a construir uma imagem mental dele. Os conceitos espaciais como perto, longe, em cima ou embaixo começam a ser discriminados; as noções temporais relativas à duração, ordem e sucessão de eventos são compreendidas.

Corpo representado: 

corresponde ao período operatório de Piaget. Começa aproximadamente aos sete anos quando a criança já tem noção do todo e das partes de seu corpo, assumindo e controlando seus movimentos com autonomia e independência. No final dessa fase, a criança já tem uma imagem de corpo operatória, usando-o para efetuar e programar mentalmente ações e orientando-se por pontos de referência que podem ser escolhidos.

A lateralidade e a psicomotricidade

Outro conceito que se relaciona a psicomotricidade é a lateralidade. Este conceito traduz-se pelo estabelecimento da dominância lateral da mão, olho e pé, do mesmo lado do corpo (REZENDE; GORLA; ARAÚJO; CARMINATO, 2003).

Entende-se por lateralidade, portanto, o uso preferencial de um dos lados do corpo ao nível dos olhos, mãos e pés ao se realizar as atividades. Esse lado dominante apresenta mais força muscular, precisão e rapidez que o lado não dominante. Rezende; Gorla; Araújo; Carminato (2003, p. 6) afirmam que, […] geralmente acontece a confusão da lateralidade com a noção de direita e esquerda, que esta envolvida com o esquema corporal. 

A criança pode ter a lateralidade adquirida, mas não saber qual é o seu lado direito e esquerdo, ou vice-versa. No entanto, todos os fatores estão intimamente ligados, e quando a lateralidade não está bem definida, é comum ocorrerem problemas na orientação espacial, dificuldade na discriminação e na diferenciação entre os lados do corpo e incapacidade de seguir a direção gráfica.

Entenda como funciona a estruturação do espaço-temporal

A estruturação espaço-temporal decorre como organização funcional da lateralidade e da noção corporal, uma vez que é necessário desenvolver a conscientização espacial interna do corpo antes de projetar o referencial somatognósico no espaço exterior (FONSECA, 1995).

Esse fator emerge das múltiplas relações integradas da tonicidade, do equilíbrio, da lateralidade e do esquema corporal. A estruturação espacial leva à tomada de consciência pela criança, da situação de seu próprio corpo em um determinado meio ambiente, conscientizando-se do lugar que ocupa no espaço bem como sua relação com outras pessoas e coisas. (REZENDE; GORLA; ARAÚJO; CARMINATO, 2003)

A estruturação espacial não nasce com a criança, é uma construção mental, uma elaboração, iniciando-se com a relação afetiva entre mãe e filho. A criança que possui as noções de imagem corporal bem desenvolvidas consegue perceber a posição que os objetos ocupam, usando seu corpo como ponto de referência. Para assimilar os conceitos espaciais a criança necessita ter uma lateralidade bem definida.

Sobre a estruturação temporal, podemos dizer que, as noções de corpo, espaço e tempo estão intimamente ligadas. Essa noção é muito importante para a criança aprender a ler, pois necessita ter domínio do ritmo, uma sucessão de sons no tempo, uma memória auditiva, uma diferenciação de sons, um reconhecimento das frequências e das durações dos sons das palavras. 

Será a orientação temporal que proporcionará à criança a capacidade de se localizar em acontecimentos passados e se projetar no futuro. É, também, importante a criança ter domínio das noções sociais do tempo (horas, mês, estações etc.).

Para Fonseca (1995, apud CEZAR; PEREIRA; ESTEVES, 2008, p. 2), um objeto situado à determinada distância e direção é percebido porque as experiências anteriores da criança levam-na a analisar as percepções visuais que lhe permitem tocar o objeto. É dessas percepções que resultam as noções de distância e orientação de um objeto com relação a outro, a partir das quais as crianças começam a transpor as noções gerais a um plano mais reduzido, que será de extrema importância quando na fase do grafismo.

Psicomotricidade na Educação Infantil

De acordo com Negrine (1980), os exercícios psicomotores são uma das aprendizagens escolares básicas porque são determinantes para a aprendizagem da escrita e da leitura.

Estudos mostram que muitas das dificuldades em escrita podem ser prevenidas por meio de atividades motoras, assim sendo podemos afirmar que, por meio de jogos podemos contribuir na melhora do desempenho em escrita nas séries iniciais da alfabetização. 

Os exercícios psicomotores devem ser uma das aprendizagens escolares básicas, pois são determinantes na aprendizagem da escrita. Isso significa que o jogo e o brinquedo atuam na prevenção das dificuldades advindas do desenvolvimento inadequado do corpo, sendo, portanto, um valioso instrumento nas escolas quando adaptado às fases do desenvolvimento infantil.

Dentre os estudos que tratam da importância do desenvolvimento psicomotor para as aprendizagens escolares, citamos o de Petry (1988) que reafirma essa importância ressaltando que as dificuldades de aprendizagem em crianças de inteligência mediana podem se manifestar quanto à caracterização de letras simétricas pela inversão do “sentido direita-esquerda”, como, por exemplo, d, b, p, q ou por inversão do “sentido em cima em baixo”, d, p, n, u, ou, ainda, por inversão das letras ora, aro.

Para Negrine (1980, p. 61), as dificuldades de aprendizagem vivenciadas pelas crianças “são decorrentes de um todo vivido com seu próprio corpo, e não apenas problemas específicos de aprendizagem de leitura, escrita etc.”.

A escrita pressupõe, portanto, um desenvolvimento motor adequado, e habilidades como a espacial e a temporal são essenciais para que essa atividade ocorra de maneira satisfatória. De acordo com Ajuriaguerra (1988), além das habilidades cognitivas, as habilidades psicomotoras são essenciais para o ato de escrever, pois ele está impregnado pela ação motora de traçar corretamente cada letra e constituir a palavra.

O papel dos educadores da educação infantil

Os educadores que atuam na área de Educação Infantil e demais séries iniciais, somos responsáveis pela formação básica de nossas crianças, decidi investigar como se dá o processo de construção de conhecimentos de uma criança na Educação Infantil e de que forma o trabalho com a psicomotricidade interfere e/ou auxilia nesse processo de construção.

Rosa e Nisio (2002), também propõem que a estimulação do Esquema Corporal torna o corpo da criança como um ponto de referência básico para a aprendizagem de todos os conceitos indispensáveis à alfabetização (noções de em cima, em baixo, na frente, atrás, esquerdo, direito), assim como permite também seu equilíbrio corporal e dominar seus impulsos motores, que se não forem bem trabalhados, traduzem-se em dificuldades como a falta de controle de alguns segmentos corporais, descoordenação e lentidão.

Durante todo o ano letivo, direcionamos atividades para o desenvolvimento do conceito de esquema corporal dentre elas:

• Jogos de imitação;

• Estátua;

• Cantar músicas que falassem sobre as partes do corpo;

• Apontar as partes do corpo em si mesmo e no corpo do colega;

• Juntar as partes de um boneco desmontável (quebra-cabeça);

• Desenhar uma figura humana no quadro, parte por parte.

• Deitar no chão e desenhar o contorno do corpo de uma das crianças, depois completar suas partes;

• Explorar o próprio corpo com as mãos, de olhos abertos e fechados, depois representá-lo utilizando vários materiais como: guache, espuma, gel, farinha;

• Releituras de obras artísticas que privilegiasse o corpo humano;

• Completar o desenho de uma figura humana com o que estiver faltando etc.

Dentre as atividades envolvendo a coordenação motora fina, lateralidade e a noção espacial no intuito de desenvolver a capacidade de representação escrita do nome. Dentre essas atividades, podemos citar:

• Jogo do alinhavo;

• Circuitos em forma de círculos ou outras formas geométricas, marcados com fita crepe ou giz branco no chão, para as crianças perceberem a delimitação do espaço;

• Circuitos mais complexos, utilizando pneus, bastões, caixas, escadas, cordas, garrafas e quaisquer outros materiais disponíveis na escola;

• Desenho de linhas curvas no chão para testar a sua rapidez; delimitando caminhos com fita crepe, por onde teriam que passar sem sair fora e posteriormente, uma linha, onde teriam que passar em cima sem escorregar;

• Batata quente, na qual a criança passava o objeto que tinha nas mãos, trabalhando não só a lateralidade como também a atenção, através da musicalização;

• Cantava músicas, como a das vogais, com as crianças que aos poucos foram assimilando os conteúdos trabalhados. Ao escrever o nome como, por exemplo, a letra A, eu falava para eles que eram o chapéu do vovô com um traço no meio etc.

Já no início da alfabetização, a criança começa a manusear o lápis e para isso é preciso saber a direção e o limite espacial da folha, saber escrever o próprio nome em sequência correta. Por isso, tive muito cuidado ao elaborar seu planejamento, procurando envolver as crianças, através de estímulos em atividades interdisciplinares, enfocando principalmente o movimento, no qual elas tiveram oportunidade de explorarem todo o seu corpo.

Outras atividades que podem ser realizadas para complementar esse processo de construção de aprendizagens:

• Modelagem de massinhas para as crianças construírem o seu nome;

• Atividades de pesquisa e recorte de letras que formavam o nome de cada um em revistas e jornais;

• Trabalho com a ordem alfabética a partir dos nomes dos alunos;

• Análise não-silábica dos nomes das crianças, observando: quantas letras compõem o nome de cada um; quantas vogais e quantas consoantes têm cada nome; quais as letras que se repetem nos nomes de cada um; quais as letras comuns nos nomes das crianças, que outras palavras ou nomes começam com a mesma letra do nome deles;

• Jogos de memória etc.

Atividades para explorar o espaço e o esquema corporal no pátio da unidade é muito significativa, realizar com as crianças uma série de exercícios, através de brincadeiras cantadas, nas quais elas podiam: andar diferente, andar depressa, correr, andar em trave de equilíbrio, andar para o lado direito, esquerdo, para frente e para trás, subir, descer, pular, equilibrar-se, etc. 

O intuito é que com essas atividades de psicomotricidade, que o trabalho com a alfabetização seja facilitado, que se ativem os esquemas mentais dos alunos levando-os a ter equilíbrio, força, resistência e coordenação.

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