Análise Literária da obra Cartas Chilena

Este artigo tem como objetivo mostrar a importância das Cartas Chilenas, escritas por Tomás Antônio Gonzaga, no período arcádico no Brasil entre 1783-1788 (final do século XVIII). Período este do governo de Dom Luís da Cunha Pacheco Menezes, que aparece nas cartas com o pseudônimo de Fanfarrão Minésio, o qual é bastante satirizado por Gonzaga. As cartas denunciam as irregularidades políticas ocorridas no governo da época. Esta obra também pode ser comparada segundo outros aspectos tratados pelos escritores nas sátiras, como o tratamento dado à religião, ao povo, à lei e à classe política. Através da leitura desta obra o leitor poderá confrontar ou comparar duas filosofias, duas visões de mundo, duas épocas importantes para a história do Brasil, aprendendo muito sobre o espírito brasileiro.

As Cartas Chilenas são num total de 13 cartas escritas por Tomás Antônio Gonzaga o qual usava o pseudônimo de Critilo, no entanto, esse pseudônimo ficou por muito tempo obscuro. Tais Cartas relatavam os desmandos, os atos corruptos, o nepotismo, o abuso do poder, a falta de conhecimento dos cidadãos e tantos outros erros administrativos, jurídicos e morais do governador.

As cartas foram escritas em relatos na forma de versos decassílabos. Gonzaga finge escrever do Chile, contando a um amigo os abusos do governo, na cidade de Santiago. Mas percebe-se pelas circunstâncias relatadas que o país não é Chile, mas retrata Minas Gerais; que a cidade não é Santiago, mas Vila Rica e que o amigo é Cláudio Manuel da Costa, cujo pseudônimo é Doroteu e que os abusos estavam acontecendo no governo de Cunha Meneses. As Cartas Chilenas contam as injustiças e violências que Cunha Meneses “Fanfarrão” executou em seu governo, de caráter faraônico, esse caráter faraônico retrata uma obra grandiosa em objetivos e despesas que são executadas para servir como marco de uma administração política engrandecendo quem as empreendeu.

Essas Cartas circularam em Vila Rica pouco antes da Inconfidência Mineira, em 1789. Nelas podemos encontrar a sátira do poeta quando este num tom mordaz ou até mesmo agressivo, alude à mediocridade administrativa, no caso específico do governo de Minas Gerais e fazendo um paralelo podemos observar que enquanto no Brasil esse episódio acontecia próximo dos acontecimentos que deslancharam a Inconfidência, a Europa, mas especificamente a França, vivia a Revolução Francesa. Nesta obra encontramos: um prólogo, uma dedicatória, treze cartas e uma e epístola a Critilo.

O prólogo é uma conversa com o leitor onde o autor explica do que se trata a obra, neste caso, ele diz que encontrou um cavalheiro instruído nas letras e que trazia com ele uns manuscritos onde eram relatadas todas as desordens no governo de Fanfarrão Minésio, general do Chile, então ele traduz esse manuscrito e confessa que mudou algumas coisas para melhor entendimento.

Todas as treze cartas relatam desde a chegada de Fanfarrão ao Chile até a última carta, a de número treze onde ele mostra que o povo se acostuma ao sistema, que chegou de mansinho, justificado não pela virtude de quem o trouxe, mas pelo falso zelo religioso. Vejamos um pequeno trecho da 13ª carta: 20 –Também este sistema: ao seu ouvido / Acostuma a chegar-se a mansa pomba. / A nação, ignorante, se convence / De que este seu profeta conhecia / Os segredos do céu, por este meio. 25 — Não há meu Doroteu, não há um chefe, / Bem que perverso seja, que não finja, /Pela religião, um justo zelo, / E, quando não o faça por virtude, /Sempre, ao menos, o mostra por sistema.

E finaliza com uma despedida dizendo que a virtude cobrará daquele que é soberbo, numa linguagem figurada belíssima que revela a qualidade da obra do arcadismo brasileiro num tom que não se parece nem um pouco com a estética tida por despreocupada com o social, voltada tão somente a contemplação da natureza que lhe servia de pano de fundo. A 3ª Carta Chilena faz referência a Doroteu, que é retratado na natureza, a chuva, o trovão, os relâmpagos… Faz alusão aos homens de pele negra que são mantidos em cadeias que prendem os seus corpos físicos, mas não conseguem prender suas mentes, seus espíritos, seus sonhos.

Os chefes (Senhores) que usam o poder muitas vezes, não possuem sabedoria, pois não conseguem ver a beleza da vida, só cobiçam e buscam riquezas materiais, são comandantes de um exército, mas não conhecem a força do amor e da fé que fazem do povo negro um povo corajoso, lutador e acolhedor do seu povo, ainda que debaixo de muitos castigos e açoites não perdem a coragem de lutar e que já cansados de gritar apenas soltam alguns gemidos desmaiam ou morrem. 290 – Aqui prezado amigo, principiam os seus duros trabalhos. Eu quisera contar-lhe o que eles sofrem, nesta carta, mas tu, prezado amigo, tens o pleito, dos males que já leste, magoado. / 295 – Por isto é justo que suspenda a história, enquanto o tempo não te cura a chaga.

A 4ª Carta faz referência a maldição de Doroteu pelo vício do poeta e faz alusão a fartura de alimentos tais como frutas, massas, sopa, doces finos e vinho, entretanto faz questão de deixa todas essas delícias para escrever alguns poemas, retorna a falar das cadeias, faz comentários paradoxal pobre x rico, comenta sobre o soldo que era pequeno e agora empresta dinheiro, faz alusão aos trastes, ricos, presos, fracos e fortes que não são conhecedores de descanso e que são atormentados pelos chefes, que busca uma nação digna valorizada pelos grandes-heróis. Mas uma vez vem ressaltar a diferença entre ricos e pobres, a insensatez de um comandante que pode se tornar néscio. 95 – Dos poderes que tem prezado amigo, / Quem ama a sã verdade busca meios / De a poder descobrir e o nosso chefe / Despreza os meios de poder achá-la. / 190 – Tu podes… mas, amigo, não gostamos / Todo o tempo em contar sentidas coisas, / Façamos menos triste a nossa história; /Misturemos os casos, que magoam, / Com sucessos, que sejam menos fortes.

O Autor

Tomás Antônio Gonzaga – nasceu no Porto, a 11 de agosto de 1744. Com oito anos, é trazido ao Brasil e matriculado no Colégio da Bahia. De volta a Portugal, forma-se em direito (Coimbra). Depois de tentar a carreira universitária, abraça a magistratura. Em 1782, está em vila Rica (Minas Gerais) como ouvidor. Apaixona-se por Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, que imortalizaria com o pseudônimo de Marília. Implicado na conjuração mineira (1789) é preso e levado para a Ilha das Cobras. Em 1792, condenado ao exílio, segue para Moçambique, onde refaz sua vida casando-se com Juliana de Sousa Mascarenhas, viúva rica e analfabeta. Prestigiado e abastado, falece em 1810.

Sua obra divide-se em poética (Liras, duas partes, 1792 e 1799; Cartas Chilenas, 1845, edição incompleta; 1863 edição completa) e em prosa Tratado de Direito Natural, 1942. Gonzaga junto com os outros inconfidentes não aceitava a situação que vivia a colônia, pois pusera-se em execução o imposto da capitação com rigor, exigindo-se contas atrasadas; a produção do ouro escasseara e o imposto tornava-se pesadíssimo.

A Capitania sentia-se empobrecida, logo as ideias de independência despontaram nas cabeças pensadoras dos inconfidentes e o mais agravante, um amigo de Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa achava-se envolvido na conspiração, daí essa conversa de Gonzaga com Cláudio, dois amigos que deixavam marcadas as insatisfações com a situação na qual se encontrava Vila Rica.

Momento Histórico

As epístolas que compõem Cartas Chilenas – mostram a importância da sociedade literária e artística que era comum ao “formalismo” dos homens letrados nas Minas Gerais. Estes documentos revelam a corrupção política na estrutura governamental de uma sociedade numa crítica contundente onde podemos observar comportamentos que eram próprios da classe observada assim como desse momento histórico. Os movimentos “nativistas”, a Inconfidência Mineira, seus integrantes, em especial Tiradentes, foram redescobertos pela República para estabelecer uma conexão entre a “velha ordem”- o período colonial – e o “novo regime” – aquele que iniciava formando uma nova identidade nacional que visava opor-se ao que lhe era exterior, neste caso a tradição lusitana.

Assim, as revoltas, motins, as Cartas Chilenas, as revoltas do final do período setecentista, foram ressaltadas pelos historiadores republicanos tendo como propósito cunhar uma nacionalidade própria ao novo regime político. Contudo temos que ressaltar que as revoltas tidas como “nativistas” não foram evidenciadas como preconizadoras de um sentimento de brasilidade, pois se buscava o patriotismo sem construir uma oposição a Europa e ao Estado que se consolidava. (GUIMARÃES, 1988, p.5-7)

(REIS, 2003, p. 32, 47) A época do Arcadismo tem início em 1768, com o aparecimento das Obras de Cláudio Manuel da Costa, e desenvolve-se até 1836, ocasião em que Gonçalves de Magalhães publica Suspiros poéticos e Saudades, dando começo a revolução romântica. Movimento eminentemente poético, de repúdio às demasias perpetradas pelo Barroco, arregimentou pela primeira vez em nossa história literária um grupo de escritores mais ou menos coeso em seus desígnios e com um relativo sentido corporativo: Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto, Basílio da Gama, Frei José de Santa Rita Durão.

Assim, nesse período em que a Europa vivia a Revolução Francesa, o Brasil também se agitava com os movimentos nativistas, como a própria história conta as Minas Gerais era uma verdadeira “mina” para a Coroa Portuguesa e o povo precisa ter vós, portanto, ninguém melhor que os homens letrados para despertar o sentimento nacional, pois só a Literatura consegue usando a sua matéria-prima dizer o que muitos já podem ter dito, de um jeito tão próprio que encanta aquele que percebe a maneira tão peculiar de usar a palavra.

A obra Cartas Chilenas de Tomás Antonio Gonzaga foi escrita em versos decassílabos, dividido em treze epístolas, duas das quais inacabadas. Satirizam-se os costumes da época, e mais particularmente a corrupção moral que grassava durante o governo de Dom Luis da Cunha Pacheco Meneses, cognominado nas cartas, ou de Fanfarrão Minésio ou de “rei dos peraltas”. Para desviar a atenção policial Gonzaga cita o Chile, mas percebe-se que ele retrata o estado de Minas Gerais (daí serem cognominadas de “chilenas” – as cartas) e Vila Rica como sendo Santiago.


A correspondência é mantida entre os personagens Critilo e Doroteu. Critilo narra a Doroteu os acontecimentos políticos, caracterizando a mediocridade administrativa do “Fanfarrão Minésio”. O estilo do poema é simples, ligeiro, popular; o ridículo brota singelo ao tom da conversa familiar.

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