Entendendo o grafismo infantil e o desenvolvimento da criança

Este estudo tem referência em estudos de Viktor Lowenfeld interpretados por Paulo de Tarso Cheida Sans, Mestre em Filosofia da Educação de Campinas, São Paulo encontrados em sua obra sobre Pedagogia do Desenho Infantil. 

O olhar de Sans sobre Lowelfeld ajudará a justificar e interpretar as etapas de desenvolvimento de uma criança, hoje com seis anos de idade, através do desenho. 

Foram coletadas diversas representações gráficas, desde o primeiro contato com giz e papel, por volta de um ano e meio de idade, até suas representações de desenho e pintura com 6 anos de idade, encontrando-se em processo de alfabetização.

Esta coleta de dados e referências busca entender como a criança se expressa através dessas representações e como estas mudam de acordo com o desenvolvimento cognitivo e motor da criança, principalmente conforme a criança amplia sua visão de mundo em relação a pormenores e como se vê enquanto sujeito criador.

O professor de Artes precisa entender o processo do grafismo da criança e principalmente o significado do desenho na infância, para que assim entenda a importância da arte no desenvolvimento global do indivíduo, e como nos relacionamos desde a primeira infância com a criatividade. 

Lowenfeld traz em seus estudos reflexões sobre a importância de pais e educadores compreenderem as etapas e fases de transformações do grafismo infantil para que possam contribuir neste processo e consequentemente no processo de criação artística da criança.

Lowenfeld (1977) diz que “o conhecimento das mudanças, nos trabalhos que aparecem em vários níveis de desenvolvimento e das relações subjetivas entre a criança e seu meio, é necessário ao entendimento da evolução das atividades criadoras”.  

Se a arte produz conhecimento, a criança ao desenhar, além de exercitar sua capacidade criadora, explora seu conhecimento de mundo e trabalha o lado psicológico ao desenhar, logo, através do desenho conhecemos melhor a criança e o que ela pensa e do que se apropria acerca de suas vivências.

Entendendo o assunto 

O ato de desenhar da criança precisa ser respeitado e entendido como forma de expressão, desde as primeiras representações plásticas.  Mesmo com todo apelo tecnológico e outras referências da contemporaneidade, a criança, em qualquer lugar do mundo, se tiver oportunidade de desenvolver o desenho, o fará mantendo semelhante esquema gráfico.

Nos desenhos das crianças do mundo todo, há similaridades em configurações em relação à figura humana, a casa, às plantas etc. Há um esqueleto estrutural semelhante entre as criações infantis. 

Embora aconteçam temáticas universais em seus desenhos, elas mostram diferenças quanto às influências culturais distintas, informando suas experiências individuais, de modo pessoal. (SANS, 2007).

SANS (2007) explica a divisão do processo de desenhar em etapas dizendo que “o processo criativo não é o mesmo para todas as crianças. Embora obedeça a um ritmo pessoal, existem características comuns que possibilitam a sua divisão em estágios”. 

Sobre estes estágios vários pesquisadores os dividiram de formas diferentes, este estudo, ilustrado baseado nas pesquisas de Viktor Lowenfeld evidencia os estágios de elaboração mental e o resultado das mudanças expressivas enquanto a criança interage com o mundo que a cerca.  Segundo SANS (2007), “o nível de desenvolvimento intelectual em que a criança se encontra é expresso em seus desenhos, mostrando o seu estágio emocional e perceptivo”.

Do primeiro rabisco ao primeiro desenho

Lowenfeld desenvolveu uma extensa pesquisa sobre o as etapas do grafismo infantil as quais serão ilustradas neste estudo com desenhos de uma mesma criança.  Segundo Lowenfeld o desenho infantil passa pelos seguintes estágios: estágio das garatujas, que é divido em três fases: Garatuja desordenada, Garatuja ordenada e Garatuja nomeada, Estágio Pré-esquemático e Estágio Esquemático.

A criança objeto deste estudo recebeu sua primeira folha de papel e um pote de giz de cera quando tinha 1 ano e meio e em seu primeiro rabisco, vemos que a criança não apresenta coordenação motora madura, porém já consegue riscar a folha em movimentos curtos e repetitivos e em movimentos longos ultrapassando o limite da folha. Vê-se que a criança escolhe diferentes cores de giz buscando observar as cores no papel. 

Fica claro que neste período a criança não tem consciência exata de que o risco é uma consequência do seu movimento sobre o papel fase em que Lowenfeld intitula então como fase da Garatuja desordenada. 

A criança mantém este tipo de rabisco até perto dos dois anos de idade quando começa a realizar curvas, abertas e fechadas. Nesta etapa a criança começa a perceber que seus movimentos e gestos são o que direcionam o que ficará no pape e esta fase é muito estimulante para a criança.

Lowenfeld classifica esta nova etapa como fase da Garatuja ordenada. Durante este período (no caso aqui, até dois anos de idade) a criança realiza diversos rabiscos explorando os espirais e linhas alternando num mesmo desenho, tamanhos, movimentos e ritmos, o que mostra um exercício motor e perceptivo. 

Até este momento não conseguimos perceber o que a criança pretende desenhar e se a perguntarmos sobre o desenho que realizou ela pode até mesmo mudar o discurso referente à imagem diversas vezes. Talvez porque neste momento a criança ainda tem como interesse explorar e não, representar. Lowenfeld (1977) acredita que esses rabiscos, onde a criança encontra-se no, não são ainda tentativas reais para que seja retratado o meio visual da criança.

O desenvolvimento da criança

Gradativamente, a criança, explorando aspirais e linhas cria formas que Sans (2007) baseado em Lowenfeld (1977) classifica como mandalas. Acerca desta fase, Sans (2007), diz que somente um bom observador é capaz de diferenciar as formas nesta fase da criança, porém esta é uma fase importante no desenvolvimento infantil.

“Dificilmente, os adultos valorizam essa etapa de grafismo infantil, mas é por meio desta fase, que a criança obtém autoconfiança necessária para progredir com maior vigor às etapas seguintes” (SANS, 1997, p. 46)

Na fase das mandalas vê-se que a criança ainda não tem capacidade motora de produzir formas exatas, porém para a criança isto é desnecessário. O que interessa é experimentar o que é capaz de criar com o que já é capaz de desenhar. 

Gradativamente estas mandalas vão se transformando e a criança descobre que pode então, retratar coisas. Este é um momento muito agradável para a criança. “A criança atinge esse estágio e desvenda a fórmula para produzir uma imagem representativa que a satisfaz, começando uma nova fase, descobrindo o rosto humano” (SANS, 1997). 

Neste estágio, classificado por Lowenfeld como fase das Garatujas nomeadas, a criança já começa a tentar representar intencionalmente um objeto concreto, porém sua coordenação motora e desenvolvimento cognitivo ainda não acompanham seu desejo. 

Nesta fase a criança passa mais tempo desenhando, começa a falar o que pretende desenhar e é nesta fase, que podem aparecer as primeiras figuras humanas ou o sol.

O desenho aos 3 anos

A criança objeto deste estudo desenhou seu primeiro rosto humano com quase 3 anos e ao descobrir-se capaz de retratar o rosto humano, descobriu também ser capaz de retratar outras figuras como a minhoca, que era personagem de uma de suas músicas favoritas, com 3 anos completos.

Vê-se então que a partir desta fase, a criança começa a mostrar interesse em representar suas vivências, seus gostos e vontades. Ao perceber que modificando o que antes eram círculos, observando que a linha fechada pode ser esticada, inflada e alterada de acordo com sua necessidade, a criança fica estimulada a desenhar cada vez mais. 

A criança busca aprimoramento e busca retratar mais suas idéias, pois percebe que os outros podem entender o que ela quer expressar. O desenho agora comunica e está imbuído de sentido. Aqui a criança já adentra o estágio intitulado por Lowenfeld de Pré-esquemático onde a criança apresenta as primeiras tentativas de representação do real. 

A criança deste estudo apresentou esta tentativa ainda dentro dos 3 anos de idade, mas é mais comum vermos estas tentativas a partir dos 4 anos de idade.

As figuras retratadas a partir de agora pela criança, ainda com 3 anos, refletem uma mistura de inúmeras descobertas. Vemos que aos poucos a figura humana, por exemplo, ganha uma barriga, mesmo tendo um olho só, outrora ganha pernas grudadas na cabeça, com um rosto bem expressivo e mais perto dos 4 anos de idade parecem exprimir com mais fidelidade o corpo humano com tronco, cabeça, braços e pernas. A criança deste estudo apresenta até os 4 anos e meio estas variações de corpo humano, sempre mudando de acordo com o seu imaginário.

Conforme afirma SANS, (2007) “Entre quatro e cinco anos, ocorre o desenvolvimento dos pormenores, surgindo dedos dos pés e das mãos, dentes, orelhas, umbigo e outras minúcias”. 

Ao observarmos os desenhos onde a criança estudada desenha a figura masculina e a figura feminina percebemos bem a presença destes pormenores e também da personalidade nas criações pictóricas da criança. A partir desta fase fica possível identificar o traço e as criações de cada criança em sua individualidade criadora.

A partir desta etapa, importantes dados psicológicos começam a aparecer no grafismo infantil, SANS (2007) baseado em seus estudos de Lowenfeld relata que as proporções, nesta fase ainda não se apresentam corretas, porém o real valor está em como a criança se relaciona emocionalmente com o que desenha.

Entendendo o processo de alfabetização

A criança aqui estudada iniciou o processo de alfabetização aos 5 anos de idade, a partir daí percebe-se que a leitura de mundo da criança se modifica, pois a partir de agora, novos códigos e símbolos se revelam para ela interferindo também na produção gráfica. 

Nesta época percebemos mais latente na criança a necessidade da cópia, copiar o que o colega, a professora ou os pais desenham por exemplo. DERDYK (1989) diz que “Imitar não implica necessariamente ausência de originalidade e criatividade, mas o desejo de incorporar objetos que suscitam interesse”.  Porém devemos entender que a cópia é vazia de conteúdo e que nas aulas da arte não devem ocupar o espaço da produção individual da criança.

È patente o empobrecimento da expressão gráfica quando a  criança passa pelo processo de alfabetização, principalmente quando não há um respaldo que dê garantias para continuidade da experimentação gráfica. Estes fatos nos levam a refletir sobre o funcionamento de nosso sistema educacional. (DERDYK, p. 104, 1989)

Percebemos pelo desenho da criança aqui estudada, que ao final dos 5 anos de idade que ela começa a representar alguns estereótipos no modelo da árvore, da casa e no clássico sol com duas nuvens ao lado. No outro desenho realizado já com 6 anos de idade percebemos novamente a casa estereotipada, porém em contraponto à cópia destes elementos percebemos que a figura humana ainda está relacionada com as que vinham sendo realizadas anteriormente, que trazem traços peculiares de criação e desenvolvimento da criança.

O que podemos entender?

A criança está em contínuo desenvolvimento, e seu caráter curioso, atento e experimental é reflexo de suas transformações físicas, psíquicas, motoras, cognitivas e especialmente, emocionais. Sua fonte de crescimento está na vivência prática e a arte cumpre papel importante nesse processo.

O ato de conhecer e o ato de criar estabelecem relações: ambos suscitam a capacidade de compreender, relacionar, ordenar, configurar, significar. Na busca do conhecimento reside profunda motivação humana para criar. O homem cria porque necessita existencialmente. (DERDYK, p.12, 1989).

É preciso que se conheçam as etapas do desenvolvimento infantil, buscando valorizar o papel da arte e sua importância na educação infantil não só no âmbito escolar, mas em todas as relações da criança.  

Para professores de Arte, entender o desenho infantil é entender melhor conceitos e até mesmo de arte contemporânea. É preciso entender como se dá o processo de construção do desenho e estudar o universo de tramas psicológicas que o envolvem buscando uma nova leitura do mundo e da arte.

SANS (2007) diz que “Apreciar o desenho da criança é perceber a dimensão do “belo” em toda sua plenitude, que não se restringe ao visual da obra, mas ao encanto geral que ela emana”.  Instrumentar-se em relação à linguagem gráfica é necessário a fim de entender o processo criativo como um todo.  

O ato de desenhar impulsiona novas criações, novas manifestações diretamente ligadas ao imaginário. “O desenho como linguagem para a arte, para a ciência e para a técnica, é um instrumento de conhecimento, possuindo grande capacidade de abrangência, como meio de comunicação e expressão” (DERDYK, 1989).

Acompanhando o desenvolvimento gráfico da criança aqui estudada, podemos perceber como se dão as etapas de desenvolvimento gráfico juntamente com as etapas de desenvolvimento motor e cognitivo. Acima de tudo, percebe-se como a criança se manifesta emocionalmente. 

Ao avaliarmos o histórico social da criança objeto deste estudo sabemos que é filha de pais separados e que não possui relação alguma com o pai e em relatos soubemos que diversas vezes em que retrata o pai nos desenhos de família o coloca com o rosto totalmente riscado de preto.

Questionada sobre o porquê retrata o pai desta forma a criança diz não saber o porquê, relata somente que não gosta dele, pois ele nunca veio andar de bicicleta com ela, ou porque ele não é legal, etc. 

Vemos através deste exemplo que as leituras e reflexões acerca do desenvolvimento e expressão infantis através do desenho vão muito além de entender a evolução das formas gráficas.  

O grafismo é uma manifestação que se bem estudada pode ajudar de forma decisiva a entendermos o universo infantil e nosso próprio universo. “O ato criativo sempre deixa um rastro, caracterizando-se como fonte de renovação espiritual e de transformação” (SANS, 2007).

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