A pesquisa epidemiológica

A pesquisa epidemiológica tem caráter empírico, pois é baseada na sistemática observação, coleta de dados (ou informações) e quantificação sobre os eventos que ocorrem em uma população definida. O tratamento numérico dos fatores investigados decorre em três etapas: mensuração das variáveis aleatórias, estimativa de parâmetros populacionais e testes estatísticos de hipóteses (MEDRONHO et al, 2009).

A maneira como as hipóteses serão testadas de modo a serem aceitas ou rejeitadas depende do desenho de estudo escolhido. Temos dois grupos de estudos epidemiológicos distintos: a epidemiologia descritiva e a epidemiologia analítica.

O modo como as doenças ocorrem nas populações podem ser modificados ao longo do tempo, gerando uma estrutura epidemiológica, capaz de demonstrar o padrão de ocorrência da doença na população, como resultado da interação de fatores do meio ambiente, hospedeiro e do agente causador da doença.
Essa estrutura é dinâmica, e continuamente apresenta modificações no tempo, no espaço e apresentando uma ocorrência “normal” ou “anormal” da doença em uma determinada população, em determinado tempo e espaço. (BRASIL, 1998).

O primeiro passo para o entendimento de um problema de saúde ou de uma doença consiste em descrevê-lo pelas variáveis de Pessoa, Lugar e Tempo, respondendo às questões básicas da epidemiologia descritiva:

– Quem foram os atingidos pelo dano?
– Sobre quem ocorre determinada doença?
– Quando foram atingidos pelo dano?
– Existe alguma época do ano em que aumenta o número de casos?
– Onde foram atingidos pelo dano?
– Em que áreas do município ou regiões do país a doença é mais frequente? Há disparidades regionais ou locais?

Variáveis relacionadas às pessoas

Existem variados modos de se descrever ou mesmo classificar as características das pessoas envolvidas em um estudo epidemiológico. Deve-se entender que esta variável independe do tempo e do espaço.
Para melhor compreensão, Pereira (2006) organizou as variáveis relacionadas às pessoas em três categorias: demográficas, sociais e comportamentais.
Os objetivos de conhecer como um agravo à saúde atinge diferentes segmentos populacionais são: expor a situação de saúde de um subgrupo, fornecer subsídios para explicação causal para levantamento de hipóteses e definir prioridades de intervenção (PEREIRA, 2006)

Exemplos de variáveis relativas às pessoas (PEREIRA, 2006):
– Variáveis demográficas: idade, sexo, grupo étnico.
– Variáveis sociais: estado civil, renda, ocupação, instrução.
– Variáveis que expressam estilo de vida: hábito de fumar, consumo alimentar, prática de exercício físico e consumo de drogas.

Responder a questionamentos sobre a existência de grupos especiais mais vulneráveis ou se o fato de pertencer a uma dada classe social determina diferenças nos riscos é fundamental para as ações de promoção e prevenção de saúde.

Dentre todas as variáveis citadas, a idade é a mais relatada em estudos epidemiológicos, descrevendo incidência, prevalência ou mortalidade, sendo frequentemente expressa em grupos ou faixas etárias (exceto para faixas iniciais de crianças menores de 1 ano ou mesmo menores de 1 mês).

A distribuição das idades por faixa depende do foco do estudo. Este tipo de classificação permite identificar em um grupo ou população em qual faixa etária existe maior risco de adoecimento ou de óbitos, de acordo com o agravo em questão.

Variáveis relacionadas ao sexo

A variável sexo é amplamente estudada por questões anatômicas e fisiológicas diferentes, onde cada um vive experiências específicas, privadas e não compartilhadas pelo sexo oposto. Sob o ponto de vista demográfico, em qualquer lugar ou idade, a população masculina e feminina são numericamente desiguais (ROUQUAYROL e BARRETO, 2003).

Com relação à morbimortalidade, esta é maior no sexo masculino, sendo que a mulher vive de 4 a 10 anos a mais; a mortalidade é maior no sexo masculino em todas as faixas etárias, inclusive nas crianças menores de 1 ano; algumas condições incidem mais no sexo masculino: coronariopatias, neoplasias do aparelho respiratório, úlcera péptica, cirrose hepática, gota, acidentes, suicídio, etc., enquanto outras no sexo feminino: varizes, tireoideopatias, cálculo biliar, lúpus, doenças reumáticas, depressão, tentativa de suicídio; em geral as mulheres adoecem mais do que os homens e utilizam mais os serviços de saúde (PEREIRA, 2006)

Variáveis relacionadas ao tempo

O uso das informações sobre a distribuição temporal visa indicar os riscos a que as pessoas estão sujeitas; monitorar a saúde da população; prever a ocorrência de eventos e fornecer subsídios para explicações causais; auxiliar o planejamento de saúde e avaliar o impacto das intervenções (PEREIRA, 2006).
Para abordarmos a variável relacionada ao tempo, é necessário que se trabalhe com, no mínimo, três conceitos propostos por (ROUQUAYROL e BARRETO, 2003).

– Intervalo de tempo: variável de tempo medida em número de horas, dias, semanas, meses ou anos. Caracteriza a quantidade de tempo transcorrido entre dois eventos sucessivos (exemplo: tempo decorrido entre a exposição ao fator de risco e o aparecimento dos primeiros sintomas).
– Intervalo cronológico: quando há referência a uma sequência de tempo, especificada no calendário, numerado sequencialmente, ou seja, datadas em anos, meses ou semanas (exemplo: a distribuição da incidência da poliomielite é feita para o intervalo que vai de 1979 a 1989).
– Período: denominação dada a uma parte delimitada do tempo. Períodos do ano (meses), período de mês (semana) ou períodos do dia (horas) podem ser utilizados delimitando o tempo de ocorrência de dado agravo (exemplo: no mês de janeiro há maior número de casos de dengue no Brasil).

A partir de então, estudaremos os tipos de variações relativas ao tempo conforme proposto por Pereira (2006) e Medronho (2009):
Geral (histórica ou secular): Indica o que se observa, em longo prazo, geralmente décadas, na evolução de um evento. Seu objetivo é estabelecer se as frequências variam com o tempo e, se sim, quais as características desta variação. O estudo de uma série histórica é feito com a intenção de se detectar e interpretar a evolução da incidência de um evento.

Cíclica: É caracterizada pelas oscilações periódicas de frequências. A colocação da frequência anual de certos eventos em gráfico permite detectar flutuações anuais de frequência de eventos e a periodicidade independe de a tendência ser ascendente ou decrescente.
Sazonal: Esta é a denominação usada para designar oscilações periódicas, cujos cíclos configuram ritmo sazonal por durarem um ano, ou seja, o ciclo de variação de incidência de uma doença coincide com as estações do ano, típico das doenças infecciosas agudas. Os máximos e os mínimos em uma distribuição cronológica ocorrem sempre no mesmo período, seja do ano, do mês, da semana ou do dia. Esta variação depende de um conjunto de fatores como a radiação solar, a temperatura, a umidade do ar, precipitação, etc.
Irregular (acidental): São alterações na frequência dos agravos à saúde resultante de acontecimentos não-previsíveis ou não enquadráveis nas categorias já apresentadas. As epidemias são a expressão de frequências mais elevadas que as habituais.
De acordo com Rouquayrol (2006), a palavra Epidemia foi utilizada por Hipócrates se referindo aos surtos de doenças em um sentido de visitar, demonstrando o caráter de temporalidade, de provisório, dos diversos aspectos da epidemia.

Pereira (2006) ressalta que o aumento da frequência pode ser um episódio inusitado, mas comumente ele é decorrente da combinação de uma série de fatores e situações, de modo que os casos epidêmicos se misturam aos casos endêmicos da doença. Salientando que o aumento deve ser brusco, diferenciando-o dos quadros endêmicos.

Podemos exemplificar com os casos de dengue em nosso país. Esta é uma doença endêmica, mas no momento em que a população se depara com um novo vírus, surge um surto epidêmico.

De acordo com Pereira (2006), as epidemias podem ser divididas em:
– Epidemia Explosiva: é a que apresenta uma rápida progressão, até atingir a incidência máxima, num curto espaço de tempo.
– Epidemia lenta: a qualidade de “lenta” refere-se à velocidade com que é atingida a incidência máxima.
– Epidemia Progressiva ou Propagada: o critério diferenciador é a existência de um mecanismo de transmissão de hospedeiro a hospedeiro. Neste caso a doença é difundida de pessoa a pessoa.
– Epidemia por fonte comum: a veiculação do agente transmissor se dá pela água, alimentos, ar ou introduzido por inoculação.

A endemia, conforme dito anteriormente, possui um padrão uniformemente distribuído e está habitualmente presente entre uma determinada população.

Variável relacionada ao lugar

Espaço geograficamente restrito ou disperso (pandêmico). Está relacionado à água ou a alimentos, assim como grupos múltiplos ou não.
Denomina-se espaço ou lugar a totalidade das coisas materiais, vivas e inanimadas, que pode ser organizado e subdividido em lugares delimitados e definidos.

O uso das informações relativas ao lugar apresenta os seguintes objetivos:
– Indicar os riscos a que as pessoas estão sujeitas. Por exemplo: risco de infecção de malária na Amazônia e as epidemias de dengue em várias regiões do Brasil;
– Prever a ocorrência de eventos; acompanhar a disseminação de eventos. Por exemplo: a década de 1990 testemunhou a reintrodução e a propagação do vibrião colérico no continente. Os primeiros casos foram detectados no Peru, a partir do qual a doença alastrou-se rapidamente para outros países;
– Fornecer subsídios para explicações causais. Por exemplo: consumo de pescado e doença coronariana. Estudos realizados na década de 60 indicaram que os esquimós apresentavam menor incidência de doenças coronarianas, em comparação às taxas existentes em numerosos países, embora consumissem dietas ricas em gordura, à base de peixes;
– Auxiliar o planejamento de saúde; definir prioridades de intervenção. Por exemplo: Em alguns países, como a Holanda, Suécia e o Japão, na década de 1990, apresentavam uma mortalidade infantil de 5 óbitos de menores de um ano por mil nascidos vivos. Se um outro país, estiver apresentando um número maior do que isso, por exemplo, 55 óbitos por mil, conclui-se que há 50 óbitos potencialmente evitáveis, no decurso do primeiro ano de vida, em cada mil nascidos vivos;
– Avaliar o impacto das intervenções. Por exemplo: Controle da esquistossomose. A aplicação de um veneno para caramujos visando controle da doença, levada a efeito em uma área, e não em outra, permite inferir os seus reflexos na redução da população de caramujos e na diminuição da incidência de esquistossomose.

De acordo com Rouquayrol e Barreto (2003), as variáveis de lugar podem ser agrupadas em variáveis geopolíticas, variáveis geográficas e fatores ambientais.

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