Processo de Enfermagem de Wanda de Aguiar Horta

Segundo Horta, nenhuma ciência pode sobreviver sem filosofia própria e assim tem de ser a enfermagem, que não deve prescindir de uma filosofia unificada que lhe dê bases seguras para o seu desenvolvimento.

Na enfermagem, prossegue Horta, existem três seres:

• Ser enfermeiro (gente que cuida de gente);
• Ser cliente/paciente (indivíduo, família, comunidade);
• Ser enfermagem (comprometimento, compromisso).

Horta coloca para discussão a seguinte questão: a enfermagem é uma ciência? É uma teoria? Para responder estas questões, diz que para ser ciência a enfermagem precisaria ter um corpo de conhecimentos (e isso a profissão tem), que sejam sistematizados e organizados (esta questão ainda não é dominada pela profissão).

Por outro lado, para ser uma teoria, que seja uma atividade humana, com conhecimentos empíricos e teorias relacionadas entre si e referentes ao universo natural, a enfermagem possui todos os requisitos.

Horta define ciência como sendo a práxis, vontade de poder, em que a técnica é vontade de poder efetuada. Já a teoria serve como guia de ação, para coleta de dados, para a busca de novos conhecimentos e que explica a natureza da ciência. Ainda assim, considerando que a caracterização de uma ciência se dá pela indicação clara de seu objeto, sua descrição, explicação e previsão, e que o objeto da ciência é o ente concreto que se revela ao homem.

Todo ente está no habitáculo do ser, um único ser pode ter seus entes concretos como objeto de várias disciplinas e que cada uma das ciências (administração, economia, história, sociologia, psicologia, medicina, antropologia) tem seu ente próprio, todas têm um único habitáculo, qual seja: o ser humano.

Neste raciocínio, temos a enfermagem, segundo Horta, sempre acumulando conhecimentos e técnicas empíricas, relacionadas entre si, que procuram explicar os fatos à luz do universo natural. O objeto da enfermagem é o ser humano, assistindo-o no atendimento de suas necessidades básicas, e estes são os entes da enfermagem. Ao descrevê-los, explicá-los, relacioná-los entre si e predizer sobre eles, caracteriza-se a enfermagem como ciência.

O início do processo teórico

Assim, Horta procurou iniciar o desenvolvimento de uma teoria, a Teoria das Necessidades Humanas Básicas, na qual procura mostrar a enfermagem como ciência aplicada, transitando da fase empírica para a fase científica, desenvolvendo suas teorias, sistematizando seus conhecimentos, pesquisando e tornando-se dia a dia, como uma ciência independente.

Horta inspira-se no desenvolvimento de seus estudos, na Teoria da Motivação Humana de Maslow, fundamentada nas necessidades humanas básicas. Elaborou sua teoria sobre a motivação humana, fundamentado nas necessidades humanas básicas assim descritas:

– Necessidades fisiológicas;
– Segurança;
– Amor;
– Estima;
– Autorrealização.


Segundo Maslow, o indivíduo passa a buscar sempre satisfazer um nível superior ao que se encontra, onde se situa o permanente estado de motivação por esta busca, nunca existindo satisfação completa, pois se assim fosse não existiria mais motivação. Na enfermagem, segundo Horta, busca-se utilizar a denominação de João Mohana:

– Necessidades de nível psicobiológico;
– Necessidades de nível psicossocial;
– Necessidades de nível psicoespiritual.
– Horta considera a enfermagem como:
– Um serviço prestado ao ser humano;
– Parte integrante da equipe de saúde.

Assim define estes princípios:

– O ser humano é parte integrante do universo dinâmico, sujeito às leis que o regem no tempo e no espaço;
– O ser humano está em constante interação com o universo, dando e recebendo energia;
– A dinâmica do universo provoca mudanças que o levam ao desequilíbrio no tempo e no espaço.

Como integrante da equipe de saúde, a enfermagem apresenta:

– Manutenção do equilíbrio dinâmico, prevenindo desequilíbrios e revertendo desequilíbrios em equilíbrio do ser humano, no tempo e no espaço;
– O ser humano tendo necessidades básicas que precisam ser atendidas para o seu bem-estar;
– O conhecimento do ser humano em relação às suas necessidades é limitado pelo próprio saber, o que exige um profissional para auxiliá-lo;
– Quando em desequilíbrio, esta necessidade torna-se mais necessária;
– Todos os conhecimentos e técnicas acumuladas pela enfermagem dizem respeito ao atendimento das necessidades básicas afetadas;
– A enfermagem assiste a estas necessidades do ser humano, com a aplicação do conhecimento e princípios científicos das ciências físico-químicas, biológicas e psicossociais.

Horta, assim, define o primeiro conceito, que vem a ser o de que a enfermagem é a ciência e a arte de assistir o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas, de torná-lo independente desta assistência, quando possível, pelo ensino do autocuidado; de recuperar, manter e promover a saúde em colaboração com outros profissionais.

Segundo Horta, assistir em enfermagem é fazer pelo ser humano àquilo que ele não pode fazer por si mesmo, ajudar ou auxiliar quando parcialmente impossibilitado de se autocuidar, orientar ou ensinar, supervisionar e encaminhar a outros profissionais. Este conceito de Horta impõe as seguintes proposições sobre as funções do enfermeiro.

Quais são as funções do enfermeiro?

– Área específica: assistir o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas e ensinar o autocuidado;
– Área de interdependência: atua na manutenção, promoção e recuperação da saúde;
– Área social: atua no ensino, pesquisa, administração, responsabilidade legal e participação na associação de classe.

Horta define alguns princípios para a enfermagem. São eles:

– A enfermagem respeita e mantém a unicidade, autenticidade e individualidade do ser humano;
– A enfermagem é prestada ao ser humano e não à sua doença ou desequilíbrio;
– Todo cuidado de enfermagem é preventivo, curativo e de reabilitação;
– A enfermagem reconhece o ser humano como elemento participante ativo no seu autocuidado.

Segundo Horta, a enfermagem para ser eficiente e eficaz necessita atuar dentro de um método científico de trabalho, a que chamou de processo de enfermagem. O processo de enfermagem é um processo de ações sistematizadas e inter-relacionadas, visando assistir o ser humano, constituído por seis fases ou passos:

– Histórico de enfermagem: consistindo no roteiro sistematizado para o levantamento de dados que tornam possível a identificação dos problemas;
– Diagnóstico de enfermagem: consistindo na identificação das necessidades do ser humano e a determinação do grau de dependência desse atendimento em natureza e extensão;
– Plano assistencial, que consiste na determinação global da assistência de enfermagem que o ser humano deve receber diante do diagnóstico estabelecido;

– Plano de cuidados/prescrição de enfermagem, que consiste na implementação do plano assistencial pelo roteiro diário (ou período aprazado), que coordena a ação da equipe de enfermagem na execução dos cuidados adequados ao atendimento das necessidades básicas e específicas do ser humano;

– Evolução de enfermagem, que consiste no relato diário (ou aprazado) das mudanças sucessivas que ocorrem no ser humano sob assistência profissional, avaliando-se a resposta do ser humano à assistência implementada;

– Prognóstico de enfermagem, que consiste na estimativa da capacidade do ser humano em atender suas necessidades básicas alteradas após a implementação do plano assistencial e à luz dos dados fornecidos pela evolução de enfermagem.

Horta faz, ainda, considerações importantes sobre diferenças quanto aos significados do que segue:
– Assistência de enfermagem: aplicação, pelo enfermeiro, do processo de enfermagem para prestar o conjunto de cuidados e medidas que visem atender às necessidades básicas do ser humano;

– Cuidado de enfermagem: ação planejada, deliberada ou automática do enfermeiro, resultante de sua percepção, observação e análise do comportamento, situação ou condição do ser humano.

Os instrumentos básicos, segundo Horta, para a aplicação do Processo de Enfermagem são:

– Habilidades;
– Conhecimentos;
– Atitudes;
– Observação;
– Comunicação;
– Destreza manual;
– Planejamento;
– Avaliação;
– Criatividade;
– Trabalho em equipe;
– Utilização de recursos da comunidade.

Para ele, uma das fases mais importantes do trabalho do enfermeiro consiste na coleta de dados que leva à identificação dos problemas de enfermagem, que é toda situação e/ou condição apresentada pelo indivíduo, família ou comunidade que exija assistência profissional. Para a identificação dos problemas de enfermagem, o enfermeiro utiliza-se do exame físico e histórico, que deve ser o mais completo possível, necessitando que o enfermeiro identifique e diagnostique os problemas de saúde, quais sejam:

– O que o paciente acha de sua doença: qual a causa, por que adoeceu, o que pensa que está acontecendo, o que significa para ele a doença, tratamento, internação, hospital, alta, cirurgia, exames, enfermagem e outros aspectos importantes;

– Que doenças já teve e suas experiências a respeito;
– Medos ou preocupações a respeito;
– Fase da doença: grave, aguda, crônica, subaguda, etc.;
– Resultados de exames de interesse.

Cumprida esta fase, chega-se ao diagnóstico e problemas de enfermagem, ao plano assistencial, ao plano de cuidados de enfermagem, à evolução e ao prognóstico de enfermagem.

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