Composição Corporal

Avaliação de medidas antropométricas

A avaliação da composição corporal permite ao profissional de saúde, como o nutricionista, identificar, qualificar e comparar dados relacionados ao equilíbrio nutricional do indivíduo. É uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de um planejamento alimentar e para presumir a condição de saúde que se encontra o avaliado.

As informações que conseguimos obter através de uma avaliação das medidas de antropometria nos trazem conhecimento sobre excessos ou carências que podem ser reflexo de má conduta alimentar, escolhas errôneas nas atividades físicas ou enfermidades. Sabe-se, por exemplo, que o excesso de gordura corporal correlaciona-se com um risco aumentado para desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas (diabetes mellitus, dislipidemias, entre outras).

Em contrapartida, a perda de gordura por inanição, embora não seja tão grave quanto à perda de proteínas, ainda é um importante indício de que a ingestão alimentar está sendo insuficiente. Avaliando a composição corporal é possível identificar riscos à saúde relacionados à perda de massa magra e ao excesso ou escassez de gordura corpórea em indivíduos hospitalizados (KAMIMURA, SAMPAIO, CUPPARI, 2009).

A mensuração da gordura corporal, comumente expressa em percentual, é um dos principais focos na avaliação antropométrica. Segundo Acuña e Cruz (2004), a gordura subcutânea representa 50% da gordura armazenada no corpo e pode refletir o conteúdo de gordura corporal total com boa acurácia.

Existe uma variedade de técnicas para aferição dos componentes corpóreos, mas muitas delas ainda têm seus usos restritos ou pouco difundidos, pelo seu alto custo e manuseio especializado. Na prática clínica, os exames mais usados são a verificação das medidas de dobras cutâneas e das circunferências corporais.

Conheça, a seguir, os principais aspectos dessas técnicas:

Dobras cutâneas

Para determinar um dobra cutânea ou prega cutânea, se deve pinçar a pele com os dedos indicador e polegar a fim de manter duas camadas de pele com sua respectiva gordura subcutânea e posicionar o equipamento denominado Adipômetro no local convencionado.

A medição das dobras cutâneas fornece a estimativa da gordura corporal com duas vantagens: ser uma técnica relativamente simples e não invasiva. Ela também permite caracterizar a forma como essa gordura está distribuída no corpo. O valor encontrado na medição das dobras pode ser analisado de forma absoluta ou usado para um cálculo de percentual de gordura. Existem diversos autores que determinaram equações para esses cálculos e a escolha se dá de acordo com as características populacionais ou aspectos específicos da pessoa que será avaliada.

Veremos agora quatro das principais dobras cutâneas que são mais utilizadas na prática clínica para avaliar a reserva de gordura corpórea:


a) Dobra Cutânea Tricipital (DCT): amplamente utilizada no contexto clínico, pois se considera que a região do tríceps seja muito representativa com relação à camada subcutânea de gordura, sobretudo em mulheres. Pode ser avaliada de forma isolada ou em combinação com a circunferência do braço (CB) para obtenção da área de gordura do braço (AGB), área muscular do braço (AMB) e circunferência muscular do braço (CMB).Essas últimas medidas serão tratadas adiante.

O resultado isolado da DCT pode ser comparado segundo as referências abaixo (na literatura pertinente existem outras citações que podem ser utilizadas conforme a necessidade de cada serviço).

Adequação da DCT (%) = DCT obtida (mm) / DCT referência x 100.

Padrão de referência simplificado para DCT

HOMEMMULHER
12,5 mm16,5 mm

FONTE: Jelliffe, 1966 apud Kamimuraet al., 2002.

Classificação do estado nutricional de acordo com prega cutânea tricipital.

  PCTD. GraveD. ModeradaD. LeveEutrofiaSobrepesoObesidade
< 70%70–80%80–90%90–110%110–120%> 120%

FONTE: Blackburn; Thornton, 1979 apud Kamimuraet al., 2002.

b) Dobra Cutânea Bicipital (DCB): o resultado (valor obtido) é utilizado em fórmulas de predição da gordura corporal. Não existem valores de referência isolados para esta dobra.

c) Dobra Cutânea Subescapular (DCSE): outra dobra preditora da gordura corporal total quando utilizada em combinação com outras dobras, não apresentando valores de referência quando isolada.

d) Dobra Cutânea Suprailíaca (DCSI): igualmente usada como indicador do percentual de gordura corporal apenas se combinada em fórmula.


Valores de referência para percentuais de gordura corporal

Como comentado anteriormente, o somatório dos resultados das dobras cutâneas é utilizado para estimar o percentual de gordura corpórea. Sendo que a tabela proposta por Durnin e Womersley (1974) apud Kamimura; Sampaio e Cuppari (2009), o faz de forma simples e rápida, sem uso de fórmulas complexas. As dobras utilizadas neste somatório são DCT (tricipital), DCB (bicipital), DCSE (subescapular) e DCSI (suprailíaca). A partir do valor encontrado compara-se com os valores de referência na tabela abaixo.

 GORDURA CORPORAL (%)
HOMENSMULHERES
Risco de doenças associadas à desnutrição≥5≥8
Abaixo da média6 – 149 – 22
Média1523
Acima da média16 – 2424 – 31
Risco de doenças associadas à obesidade≥25≥32

FONTE: Kamimura, Sampaio e Cuppari, 2009.

Circunferências ou Perímetros Corporais

À proporção que se torna necessária uma avaliação nutricional mais completa, dados adicionais devem ser obtidos. Neste caso, as circunferências corporais, que são abrangidas pela massa gorda, massa muscular e tamanho ósseo, são extensamente utilizadas na prática clínica, pois também podem indicar o estado nutricional e o padrão de gordura corporal. As medidas de circunferências mais usadas na rotina clínica são: a circunferência do braço (CB), área de gordura do braço (AGB), área muscular do braço (AMB), circunferência muscular do braço (CMB), circunferência da panturrilha (CP), circunferência da cintura (CC) e circunferência do quadril (CQ). Entenda melhor a utilização dessas medidas a seguir:


a) Circunferência do Braço (CB): representa a soma das áreas constituídas pelos tecidos ósseo, muscular e adiposo do braço. É muito utilizada na prática clínica, tanto a medida isolada, quanto em combinação com o valor de PCT para diagnosticar alterações da massa muscular corporal total. Existem outros padrões de referência para esta medida isolada, mas abaixo apresentaremos a faixa simplificada de normalidade para CB e o padrão de referência mais utilizado.

Adequação da CB (%) = CB obtida (cm)/CB referência 50 x 100


Faixa de Referência Simplificada para CB

HOMEMMULHER
29,5 cm28,5 cm

FONTE: Jelliffe, 1966 apud Kamimuraet al., 2002.

Classificação do estado nutricional de acordo com circunferência do braço.

  CBDesnutrição GraveDesnutrição ModeradaDesnutrição LeveEutrofiaSobrepesoObesidade
< 70%70 – 80%80 – 90%90 – 110%110 – 120%> 120%

FONTE: Blackburn; Thornton, 1979 apud Kamimuraet al., 2002. 

b) Circunferência Muscular do Braço (CMB): é a medida que avalia o compartimento de reserva do tecido muscular, entretanto não há correção da área óssea. É obtida a partir dos valores de PCT e CB a serem lançados na fórmula abaixo que, em seguida, apresenta os padrões de referência desta medida.

CMB (cm) = CB (cm) – ? X [PCT (mm) ? 10]


Adequação da CMB (%) = CMB obtida (cm) / CMB percentil 50 x 100

Faixa de Normalidade Simplificada para CMB

HOMEMMULHER
25,3 cm23,2 cm

FONTE: Jelliffe, 1966 apud Kamimuraet al., 2002.

Classificação do estado nutricional de acordo com CMB.

  CMB  Desnutrição GraveDesnutrição ModeradaDesnutrição LeveEutrofia
< 70%70 – 80%80 – 90%> 90%

FONTE: Blackburn; Thornton, 1979 apud Kamimuraet al., 2002.


c) Área Muscular do Braço Corrigida (AMBc): determina a reserva de tecido muscular, corrigindo a área óssea. É encontrada através de fórmulas específicas para cada sexo.

HomemMulher
AMBc (cm2) =CB (cm) -x PCT (mm)102- 10                                   4AMBc (cm2) =CB (cm) -x PCT (mm)102- 6,5 4  

FONTE: Kamimura, Sampaio e Cuppari, 2009.


d) Área de Gordura do Braço (AGB): identifica a reserva adiposa e aponta o excesso, ou não, de gordura corporal. Obtida pela fórmula abaixo:

AGB (cm2) = CMB (cm) xPCT (mm)10-xPCT (mm)102  2 4  

FONTE: Kamimura, Sampaio e Cuppari, 2009.


Guia para interpretação dos percentis de AMBc e AGB

Os valores desses indicadores (AMBc e AGB) podem ser confrontados com valores específicos para sexo e idade, preconizados por Frisancho (1981) apud Kamimura, Sampaio e Cuppari (2009), e interpretados segundo a tabela abaixo:

PERCENTILTECIDO ADIPOSOTECIDO MUSCULAR
< 5Magro/baixa reservaMagro/baixa reserva
5 a 15Abaixo da médiaAbaixo da média
16 a 85MédiaMédia
86 a 95Acima da médiaAcima da média
≥95Excesso de gorduraExcesso de gordura

FONTE: Kamimura, Sampaio e Cuppari, 2009.


e) Circunferência da Panturrilha (CP): é a medida mais sensível para medir a massa muscular, além de seu valor ser usado no cálculo de estimativa de altura e peso. Não há um padrão de referência que indique valor normal, acima ou abaixo para a panturrilha. O que se recomenda é que esta medida pode ser usada para acompanhamento nutricional (verificar ganho ou perda de reserva muscular).


f) Circunferências da Cintura e do Quadril: a relação das medidas da cintura e quadril, chamada relação cintura quadril (RCQ), é a medida de adiposidade mais frequentemente utilizada e está fortemente associada à gordura visceral, sendo um índice aceitável para o prognóstico de gordura intra-abdominal. Prediz o risco aumentado para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos como diabetes mellitus, dislipidemias, hiperuricemia, etc.

 É obtida através da fórmula abaixo e o valor é utilizado para avaliar o risco conforme tabela a seguir:

RCQ = circunferência da cintura / circunferência do quadril

  RISCO AUMENTADOHOMENSMULHERES
> 1,0> 0,8
> 0,95> 0,85

FONTE: Kamimuraet al., 2002.

Também pode-se usar o valor isolado da medida da circunferência da cintura (alguns autores a chamam, neste caso, de circunferência abdominal), para inferir sobre o risco aumentado de complicações metabólicas associadas à obesidade. Estudos recentes têm apontado que a medida isolada da CC ou CA independe da altura e correlaciona-se fortemente com o IMC (KAMIMURA, et al., 2002).

Os pontos de corte são mostrados abaixo, mas Kamimura, Sampaio e Cuppari (2009) chamam atenção para a realização de estudos na nossa população, separando por sexo e idade, pois esses valores provêm de um estudo feito com população holandesa.

NormalRisco ModeradoAlto Risco
Homem< 9494 – 102 cm> 102 cm
Mulher< 8080 – 88 cm> 88 cm

FONTE: Kamimura, Sampaio e Cuppari, 2009.

Sempre é bom lembrar que para desenvolver habilidades como avaliador de dobras cutâneas e circunferências é preciso prática e aplicação das técnicas padronizadas, além do uso de equipamentos devidamente calibrados. 

Apresentamos aqui diversos aspectos de medição das técnicas mais utilizadas na prática clinica, entretanto demais técnicas de aferição de composição corporal, assim como, outras informações de medição de dobras cutâneas e circunferências podem ser encontradas na literatura específica. Livros de nutrição que apresentem capítulos de avaliação nutricional são leituras complementares importantes para o aprendizado, visto que existem inúmeras metodologias e procedimentos desse tema.

Ficou interessado em saber mais e poder por em prática seu conhecimento, siga acompanhando nossos textos e conheça nossos cursos na área da nutrição.

Receba novidades dos seus temas favoritos

Se aprofunde mais no assunto!
Conheça os cursos na área da Saúde.

Mais artigos sobre o tema