Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso da cocaína

A cocaína é uma das drogas ilícitas mais aditivas e perigosas, atualmente consumida por 0,3% da população mundial. Segundo o Levantamento Brasileiro sobre Drogas (BRASIL, 2009), a prevalência de seu uso durante algum momento da vida chega a 2,9%, mas é inferior ao observado no Chile (5,3%) ou nos EUA (14,2%), maior na região sudeste (3,9%) e menor nas regiões norte e nordeste (1%).

O uso de cocaína no Brasil varia bastante conforme sexo e idade: situa-se em 5,4% entre homens e 1,2% entre mulheres. A faixa etária de maior uso ocorre entre 25 e 34 anos de idade, na qual atinge a porcentagem de 5,2%. Entre os adolescentes de 12 a 17 anos, 0,5% relatam já terem experimentado essa droga. (BRASIL, 2009).

Quanto ao uso do crack, estima-se que 0,7 de pessoas que fizeram uso em algum momento de sua vida, com valores entre 0,1% e 02% de uso frequente ou pesado.

A prevalência entre os homens é duas vezes maior do que entre as mulheres, com variações relacionadas à idade, com maior incidência na população de adultos jovens.

É uma substância extraída de uma planta originária na América do Sul, popularmente conhecida como coca (Erythroxylon coca), e, transformado posteriormente em vários subprodutos: pó (cloridrato de cocaína), crack e merla.

A cocaína pode ser consumida por várias vias de administração, com rápida e eficaz absorção pelas mucosas oral, nasal e pulmonar. Na forma de pó pode ser aspirado ou dissolvido em água e injetado na corrente sanguínea, e na forma de pedra, é fumada, o crack. Existe ainda a pasta de coca, um produto menos purificado, que também pode ser fumado, conhecido como merla.
O mecanismo de ação se dá principalmente pela inibição da recaptação de dopamina, mas há também bloqueio da recaptação da serotonina e da noradrenalina. Devido à cocaína também apresentar propriedades de anestésico local que independem de sua atuação no cérebro, foi uma das indicações de uso médico da substância no passado, mas hoje em dia este uso é obsoleto.
Seus efeitos têm início rápido e duração breve. No entanto, são mais intensos e fugazes quando a via de utilização é a intravenosa ou quando o indivíduo utiliza o crack ou merla. Efeitos do uso da cocaína (NICASTRI, 2008):

• Sensação intensa de euforia e poder;

• Estado de excitação;

• Hiperatividade;

• Insônia;

• Falta de apetite;

• Perda da sensação de cansaço.

A euforia desencadeada reforça e motiva, na maioria dos indivíduos, o desejo por um novo episódio de consumo. Quanto mais rápido o início da ação, quanto maior a sua intensidade dos efeitos, e quanto menor a duração destes, maior a chance de o indivíduo evoluir para situações de uso nocivo e dependência. Portanto, a via de administração é um importante fator de risco para um comportamento de uso prejudicial e, apesar de não serem descritas tolerância nem síndrome de abstinência inequívoca, observa-se frequentemente o aumento progressivo das doses consumidas. No caso do crack, os indivíduos desenvolvem dependência severa rapidamente, muitas vezes em poucos meses ou mesmo algumas semanas de uso.

Com o uso de doses maiores, observam-se outros efeitos, como irritabilidade, agressividade e até delírios e alucinações (psicose cocaínica). Pode ser observado hipertermia corporal e até crises convulsivas, que podem levar à morte se esses sintomas forem prolongados. Ocorrem, ainda, dilatação pupilar, elevação da pressão arterial e taquicardia (efeitos que podem levar até a parada cardíaca, uma das possíveis causas de morte por overdose).

Deve-se suspeitar de uso de cocaína em indivíduos que apresentem mudanças em seu comportamento habitual, tais como irritabilidade, dificuldades de concentração, comportamento compulsivo, insônia severa e perda de peso. Assim como dificuldade para executar tarefas esperadas associadas ao trabalho e às atividades domésticas.

Os critérios para dependência de cocaína são semelhantes àqueles para outras substâncias psicoativas: desejo compulsivo de consumo, tolerância, abstinência, abandono progressivo de outras atividades, persistência do uso a despeito do prejuízo, entre outros. Seu uso pode produzir complicações agudas ou crônicas.

As manifestações agudas decorrem de seu efeito estimulante, com ação periférica ou central, tanto psíquicos quanto físicos. Em geral, ocorre a euforia, aumento do estado de vigília, aumento da autoestima, melhor desempenho em atividades físicas e psíquicas. Pode haver delírios persecutórios e alucinações, que melhoram após cessar o efeito do uso. Enquanto os efeitos físicos estão ligados à hiperatividade do sistema autonômico: taquicardia, hipertensão arterial, taquipneia, hipertermia, sudorese, tremor leve em extremidades, tiques, midríase, espasmos musculares e vasoconstrição (ENGEL et al, 2006).

Pode ocorrer intoxicação aguda e overdose com uso de doses maiores, produzindo irritabilidade, sintomas maníacos, agitação e comportamento sexual compulsivo. As complicações clínicas estão ligadas à ação excessiva do sistema nervoso simpático, que pode gerar a falência de um ou mais órgãos. Como se trata de uma emergência clínica, há um alto risco de morte do usuário, em especial pelas alterações no sistema cardiovascular e sistema nervoso central.

Os sinais de abstinência, após a cessação do uso ou pela intoxicação aguda, são disforia (mau humor), anedonia (incapacidade de sentir prazer), ansiedade, irritabilidade, fadiga, hipersonolência e, ocasionalmente, agitação. Com possibilidade até de ideação suicida. Esses sinais melhoram em até 24 horas, quando o uso de cocaína for leve ou moderado, mas podem durar até uma semana, quando o consumo é pesado.

Existem evidências de que o uso dessa substância seja um fator de risco para o desenvolvimento de infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais em indivíduos relativamente jovens. Há relatos ainda, de convulsões do tipo tônico-clônicas e as mortes associadas à ingestão de altas doses de cocaína, além dos fatores descritos acima, se associam à depressão respiratória.

Como a maioria das drogas, seu consumo durante a gravidez pode estar associado ao baixo peso do recém-nascido ao nascer, abortos e déficits cognitivos.

Inúmeras comorbidades estão associadas ao uso de substâncias psicoativas, como hipoglicemia e distúrbios metabólicos. Pode haver transtornos de humor, “[…] sendo que sintomas maníacos frequentemente ocorrem na intoxicação, enquanto que sintomas depressivos estão mais associados à abstinência” (ENGEL et al, 2006, p. 25). Os sintomas psicóticos ocorrem na intoxicação, com a presença de delírios persecutórios e alucinações.

Não há um medicamento eficaz para proporcionar o alívio dos sintomas da abstinência. “O maior obstáculo a ser superado no tratamento dos transtornos relacionados à cocaína é a intensa avidez do paciente pela droga” (ENGEL et al, 2006, p. 26), além de reforçadores negativos por problemas familiares e no trabalho. Intervenções psicológicas individuais ou em grupo, com a família e grupos de apoio como os narcóticos anônimos podem contribuir para o tratamento. Apesar de ser considerado como uma nova droga, o crack não passa de uma nova maneira de se preparar e usar a cocaína (em formato de pedra e consumido por via oral, fumado em cachimbo) e popularizado na década de 1990 por ter um preço mais acessível. Contudo, com menor quantidade de substância ativa, e os efeitos estariam ligados à liberação da cocaína diretamente na corrente sanguínea através dos pulmões.

A merla (mela, mel ou melado) é a cocaína apresentada sob a forma de base ou pasta, um produto ainda sem refino e muito contaminado com as substâncias utilizadas na extração. É preparada de forma diferente do crack, mas também é fumada.

Os efeitos do crack e da merla, os riscos associados à seu uso e o potencial de dependência são basicamente os mesmos da cocaína em pó, apresentados anteriormente.

Segundo o site “Crack, é possível vencer” (BRASIL, 2013) O usuário de crack apresenta mudanças evidentes de hábitos, comportamentos e aparência física. Um dos sintomas físicos mais comuns que ajudam a identificar o uso da droga é a redução drástica do apetite, que leva à perda de peso rápida e acentuada – em um mês de uso contínuo, o usuário pode emagrecer até 10 quilos. Fraqueza, desnutrição e aparência de cansaço físico também são sintomas relacionados à perda de apetite.

É comum ainda que o usuário tenha insônia enquanto está sob o efeito do crack, assim como sonolência nos períodos sem a droga. Os períodos de utilização da droga prolongam-se até três dias e noites, onde atividades como alimentação, higiene pessoal e sono são abandonadas, comprometendo gravemente o estado físico do usuário.

Sinais físicos como queimaduras e bolhas no rosto, lábios, dedos e mãos podem ser sinais do uso da droga, em função da alta temperatura que a queima da pedra requer.

Falta de atenção e concentração são sintomas comuns, que levam o usuário de crack a deixar de cumprir atividades rotineiras, como frequentar trabalho e escola ou conviver com a família e amigos.

O usuário de crack também pode experimentar alucinações, sensações de perseguição (paranoia) e episódios de ansiedade que podem culminar em ataques de pânico, por exemplo. Isolamento e conflitos familiares são comuns, e devido à dependência rápida, o usuário pode passar a furtar objetos de valor de sua própria casa ou trabalho para comprar e consumir a droga.

Gostou do conteúdo e ficou interessado em saber mais? Siga acompanhando nosso portal e fique por dentro de todas nossas publicações. Aproveite também para conhecer nossos cursos e ampliar seus conhecimentos.

Receba novidades dos seus temas favoritos

Se aprofunde mais no assunto!
Conheça os cursos na área da Saúde.

Mais artigos sobre o tema